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Dois Olhares

"Wovon man nicht sprechen kann, darüber muß man schweigen."

 

A palavra não é um mero instrumento discursivo, uma ferramenta cujos respectivos sinónimos são equivalentes. Cada palavra transporta em si mesmo uma carga emocional, ideológica, em alguns casos, histórica que transcendem o seu significado literal.

 

Van Morrison fazia questão de destruir este poder: cantava em loop gloves loves loves gloves gloves loves gloves, triturava, mastigava como o Bexiguinha, as palavras até perderem todo o seu sentido, todo o seu poder, restando o som, a fonética, um simples mantra.

 

Instintivamente a nossa forma de pensar encontra-se dependente das palavras, que por sua vez depende da própria cultura que estamos inseridos, pelo que, em último grau, a cultura molda o nosso raciocínio, das situações mais simples às mais complexas.

 

Por exemplo, para uma tribo indígena (da América do Norte, salvo o erro) o tempo é percepcionado de forma oposta à nossa: o futuro encontra-se atrás de nós porque não o vemos, enquanto que o passado está à nossa frente porque já o vimos, o passado mais recente mais nítido e o distante cada vez mais difuso. 

 

À primeira vista esta perspectiva soa estranha, contra-intuitiva, errada. No entanto, não está errada nem a nossa o é, são apenas variações sobre o mesmo tema, mas que tem repercussões importantes na forma como o tempo é visto, sentido, como nos relacionamos com ele...

 

Se na nossa cultura o tempo fosse percepcionado da mesma forma como faz aquela Tribo, porventura seria dada mais atenção ao Passado, que está sempre defronte, cujo estudo seria essencial para perceber o Futuro; enquanto que o Futuro, por ser inteiramente incerto, seria visto com maior precaução, os passos teriam que ser seguros, cautelosos.

Este ano não gostei de grande parte do trabalho dos meus músicos de eleição. Não gosto do novo do Godinho e do Palma, não consigo ouvir o do Jorge Cruz e, embora ainda não tenha ouvido atentamente, parece-me que o último do B. Fachada também não me vai agradar. Mas felizmente houve três cds que me encheram as medidas. São eles:

 

Fausto - "Em busca das Montanhas Azuis". O fim da trilogia começada com o "Por este rio acima" e seguida do "Crónicas da terra ardente". Cd duplo de grande qualidade, um bom fim.

 

 

 

 

doismileoito - "Pés frios". Bom pop, bom cd.

 

 

 

 

B. Fachada - "Deus, Pátria e Família". O bom do Fachada é que se não gosto do trabalho de natal, tenho sempre o trabalho de verão para compensar. "Deus, Pátria e Família" são 20 minutos brilhantes.

 

Qual o filme da tua vida? Não sei, nem vou saber. Há vários que entram numa lista de melhor de, impossível escolher. Talvez por isso deteste listas. No imdb o filme mais votado é "Os condenados de shawshank". No rotten tomatoes está o "Man on wire" em primeiro lugar. Os críticos normalmente variam entre o "Casablanca" e o "Citizen Kane" como melhores filmes de sempre. E ainda há os que defendem outros clássicos. E depois existo eu que normalmente discordo destas listas.

 

Como estamos em fim de ano, e vamos ter muito tempo para falar da crise, fica aqui aqueles que foram os melhores filmes deste ano. São poucos, quase não fui ao cinema este ano (cinema é forma de dizer, é mais 'quase que não fui a um centro comercial ver um filme que desse no horário em que lá apareci).

 

Em primeiro, "Meia-noite em Paris". Sou daqueles que acha que o Woody não consegue fazer um mau filme. E este foi brilhante.

 

 

Depois o "Super 8". Embora muitos digam que o fim estraga tudo, eu gostei desta homengem do J.J. ao Spielberg.

 

 

E é isto. Sem muitas linhas, sem muitas explicações, sem muitos pensamentos profundos, para não me tornar eu naqueles críticos que odeio ler.
Fica aqui a esperança que o 50/50 possa ainda entrar nesta lista de 2011.

 

Uma das gaffes mais conhecidas da política portuguesa é a do então candidato Guterres a tentar calcular o PIB, terminando com a famosa frase "é fazer a conta". Se o valor do PIB decorre de simples aritmética, a sua importância e o seu verdadeiro significado não é assim tão linear ou, pelo menos, não o devia ser.

 

A verdade assente e acrítica de que existe uma correlação entre a subida do PIB e a qualidade de vida de um país - se o PIB sobe é porque o país está a caminhar na direcção certa - não era sequer defendida por Kuznets, prémio Nobel da Economia, que liderava a equipa de economistas que criou o cálculo do PIB, que avisou que “O bem-estar de uma nação não pode, desta forma, ser aferido através do cálculo do seu PIB".

 

Não se trata de monesprezar o PIB mas retirar a sua excessiva importância. Relativizar o PIB, um indicador entre outros igualmente importantes como a qualidade de vida, a saúde, a igualdade, o bem-estar... 

 

Porque o problema é que: "A country, for example, that overemphasizes G.D.P. growth and market performance is likely to focus policies on the big drivers of those — corporations and financial institutions — even when, as during the recent past, there has been little correlation between the performance of big businesses or elites and that of most people."

 

Fontes: The Rise and Fall of the G.D.P.; Redefining the Meaning of no. 1 e Ladrões de Bicicletas

 

 

 

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