Quinta-feira, 31.03.16

I can't get no satisfaction

A certa altura das nossas vidas a discussão recorrente muda. Esta deixa de ser sobre a profissão que se deseja e passa a ser sobre onde queremos viver. Imagino que passados mais uns anos esta verse sobre o local do repouso eterno - melhor cemitério? Père-Lachaise, é claro.

 

Actualmente pertenço aos que se encontram na segunda discussão que, como todas as que verdadeiramente interessam, nunca tem fim. No entanto, sei onde nunca viveria: há um edifício que na sua fachada tem um anúncio de venda "Aqui vou ser feliz". Nunca aguentaria esta pressão; estaria sempre a interrogar-me: se nem aqui sou feliz, o que se passa comigo? E imagino o terror das assembleia de condóminos. Uma espécie de reunião de apresentadores de programas da manhã, todos sorridentes e bem dispostos, e eu. "Aqui vou estar confortável" seria um slogan bem melhor.

 

Ou então o anúncio é mais um exemplo da obsessão com a felicidade eterna e constante; como ela é usada e abusada para vender tudo, desde bebidas gaseificadas a apartamentos; e como as expectativas criadas distorcem a visão que temos de nós, dos outros, da realidade. 

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Sexta-feira, 11.03.16

The show is always on

No excelente documentário da Netflix sobre a grande Nina Simone é contado um episódio já quase um cliché do mundo artístico: a cantora, transtornada e alheada da realidade - pintava no camarim o cabelo com graxa de sapatos - é empurrada pelo seu marido controlador para o palco para mais uma actuação.

 

O fenómeno Pagliacci segundo o qual o artista é obrigado a esconder as suas angústias perante o público era limitado a esta classe profissional. No entanto, agora com as redes sociais o palco tornou-se universal. Cada um já não vai ter 15 minutos de fama como profeciava Warhol, a atenção é constante e neste contexto a perfeição é o mínimo aceitável. E é simbólico desta nova realidade o facto das fotos digitais, o principal veículo da "actuação", não terem negativos como tinham as analógicas. Tudo é positivo nem que seja preciso repetir inúmeras vezes as selfies até poderem ser publicadas.

 

 

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Segunda-feira, 01.12.14

Pale King

Na semana passada, comecei a leitura do romance incompleto e editado postumamente de David Foster Wallace e, como sempre acontece, nasceu em mim, perante a genialidade da sua prosa, um Salieri*: aquele momento em que as pautas de Mozart escorregam pelas suas mãos e toma a consciência de que nunca será capaz de produzir algo tão bom - um sentimento ainda mais forte do que o habitual por se tratar de um livro inacabado e como tal objecto de pelo menos mais uma revisão do autor e eventuais melhoramentos.

 

Apesar de não ter qualquer desejo, nem apetência ou talento, para algum dia escrever um romance (e deus sabe como as livrarias estão já cheias de obras de qualidade duvidosa, como magistralmente se encontra descrito no malomil) não me consigo abstrair como autor de um simples blog da diferença abissal existente; o que me deixou a um pequeno passo de seguir as pisadas de Gogol e apagar o blog e desistir de escrever o quer que seja, no meu caso, é certo, sem provocar clamores de maior.

 

No entanto, não deixa de ser irónico que recorra à escrita e a este blog semi-abandonado e sem visitantes para transmitir este sentimento de incapacidade, de ter acabado de ser confrontado com a minha mediocridade - o que torna tudo ainda mais doloroso e estranho, mas reflecte também a necessidade intrínseca de comunicar.

 

Este artigo é também, e não vale a pena esconder, uma tentativa mal amanhada, e condenada ao insucesso, de copiar o estilo do DFW, por isso o melhor é deixarem a internet e comecem a ler o "Pale King".

 

* Na versão cinematográfica de Milos Forman, uma vez que na realidade este era um compositor de grande qualidade.

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Quinta-feira, 20.11.14

O mausoléu de toda a esperança e desejo

"...the lure of every addiction which is losing yourself to time"

Don DeLillo "Underworld"

 

Há um sentimento de culpa na inacção. Medo que a existência se torne incontingente. Procura-se o sentido da vida na exaustão completa do tempo - pouco interessa a forma, a quantificação acima de tudo. 

 

Os nossos gadgets quebraram os resquícios dos últimos tempos mortos: a ansiedade transfere-se para o nível da bateria. 

 

Ou não é nada disto. Apenas o medo de ficarmos sós com os nossos pensamentos; obrigados de quando em vez a reflectir um pouco.

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Segunda-feira, 18.08.14

Self-hating tourist

 

Enquanto descansava no meu quarto de Hotel, na Provença, deparei-me com a foto supra do NY Times: centenas de turistas atropelavam-se para tirar uma foto ao quadro mais famoso e fotografado do mundo.

 

Por muito que tente não consigo perceber por que razão alguém viaja milhares de quilómetros, espera horas em filas, para acabar a ver a Mona Lisa através do ecrã minúsculo da sua câmara/smartphone; que vantagem terão ao ter a sua própria foto, que ângulo desconhecido obterão que não está presente nas milhares de fotografias online?

 

Uma das explicações poderá residir na pressão de grupo: se todos na sala estão a tirar fotografias haverá um forte estimulo para se seguir o exemplo. Apostaria, porém, noutra explicação: as fotos servem como prova que estiveram no Louvre, que viram a Mona Lisa - que tanto podia ser uma pintura como um celeiro.

 

Enquanto deambulava nestas reflexões pensei nos locais que havia visitado nestas férias. A forma como os turistas, comigo incluído, afectam o "habitat natural", como conseguem transformar qualquer local num parque temático, devidamente adaptado às suas necessidades e expectativas. 

 

E conclui que eu sou o pior tipo de turistas: julgava que viajar, mesmo uns meros dias no estrangeiro, me permitiria conhecer um país, entender os seus habitantes. Na verdade, uma viagem, se tivermos sorte, "apenas" servirá para melhor nos conhecermos a nós próprios.

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Quinta-feira, 10.07.14

Ponto Azul

 

"Everything is real estate. You're a product of your geography"

- Don DeLillo

 

As selecções de futebol são cada vez mais, e ainda bem, um espelho da multiculturalidade dos respectivos países: Sami Khedir, Boateng, Mesut Ozil não são propriamente "germânicos". Continua-se, porém, a perpetuar os estereótipos como a frieza e a eficácia alemã ou a desorganização africana.

 

A artificialidade da nacionalidade não a torna menos relevante: a geografia continua a ser o variável mais importante no "sucesso" individual. No entanto, a consciência dessa artificialidade serviria pelo menos para ter uma diferente perspectiva das acções, abusos e violência perpetuados diariamente.

 

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Quarta-feira, 04.06.14

Pub

Quem quiser ler os meus textos sobre política terá que visitar  http://365forte.blogs.sapo.pt

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Segunda-feira, 05.05.14

Governo ex micromachines

"o acaso, o livre arbítrio e a necessidade, que de algum modo são incompatíveis, mas se entrelaçam e trabalham juntos. Então, o que existe é a franca urdidura da necessidade, que não deve ser desviada de seu curso, pois seus próprios movimentos alternados tendem somente a isso. O livre arbítrio, ainda livre para fazer sua lançadeira transitar por entre os fios escolhidos e o acaso que, apesar de limitado em sua acção pelas justas linhas da necessidade e desviado de seus movimentos pelo livre arbítrio, parece governado por ambos, porém reina sobre os dois e tem a última palavra nos factos."

 

"Moby Dick" - Herman Melville

 

Discute-se muito se o Governo é o mais liberal da nossa história, mas o que não há dúvida é que é o mais microgerente.

 

O Governo esqueceu-se de dois dos fios que tecem a vida: acaso e a necessidade. Julgam que tudo o que acontece está sob o seu controlo e dependência (ex: o lamentável episódio do Sec-Estado da Cultura com a Alexandra Lucas Coelho).

 

E, se algo não ocorre como planeado, há um ressentimento, como sucedeu em relação ao salário nos privados que, segundo o Governo, não teria descido como deveria ou à venda de automóveis que desceu acima do esperado.

 

A multiplicação de grupos de trabalho e respectivos relatórios, o foco na burocratização e centralização de decisão são sintomas da sua obsessão na microgerência, que nem a vida privada dos governados escapa. Assim como o ênfase em metas e objectivos triviais que não reflectem qualquer progresso ou melhoria das condições de vida ("vida das pessoas não está melhormas a do país está").

 

Num mundo global calhou-nos na sorte um Governo do século XVII.

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Terça-feira, 15.04.14

40 anos de 25 de Abril

Nasci em liberdade, vivi sempre em liberdade. Deste modo, durante anos julguei que seria uma falta de respeito falar desta data e do seu significado porquanto por muito que tentasse não conseguiria imaginar o que seria viver num Portugal acorrentado e em completa escuridão, trazida pelo manto negro de Salazar; e, da mesma forma que, por muito que se tente, não se consegue colocar nos pés de alguém invisual ou surdo, apenas quem passou por aquela realidade poderia com autoridade falar da falta de liberdade, da repressão, da fome.

 

No entanto, Pynchon fez com que a minha opinião mudasse: "um ano e um lugar não precisam de incluir a nossa presença física para que exista um sentimento de pertença".  Este é o poder da história.

 

Por isso agora digo que o 25 de Abril também é meu. E será dos meus filhos, netos, bisnetos...

 

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Sexta-feira, 11.04.14

Para além do bem e do mal

"A man gotta have a code"

Omar Little

 

Há um fascínio pela personagem Omar ("The Wire") semelhante ao que existe pela versão romantizada da Máfia. Em comum: ambos seguem um código de conduta; um contraponto ao actual zeitgeist: não é que não exista a noção de certo ou errado, acontece que já não existe sequer o certo

 

Não, antigamente o Mundo não era um paraíso de virtude. E sim, os mafiosos eram violentos, com nenhum respeito pela vida humana. O que importa, porém, é a percepção. Esta influencia o comportamento e reforça-se a si mesma. Parafraseado Naipaul, a personalidade de cada um é construída de acordo com as ideias que nos rodeiam. 

 

Ora, a cultura popular, desde as simples fábulas às longas-metragens de Hollywood, procuravam criar meta narrativas de uma certa moralidade. A sua hipocrisia foi, e bem, exposta, mas não surgiu nada em sua substituição. Ficou um vazio, uma sensação de ausência de limites, de barreiras, em que todos os meios são aceites e o sucesso é a medida de todas as coisas.

 

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Terça-feira, 08.04.14

Política de uma nota só

"E a tristeza tem sempre uma esperança..."

Vinicius de Moraes

 

Por este motivo a propaganda do Governo é tão poderosa. Ela corresponde a uma ânsia de acreditar que vai tudo melhorar, que nada foi em vão; todos os sacrifícios valeram a pena e que o futuro será melhor.

 

Com efeito, a propaganda para ter sucesso não precisa de ser verdadeira, nem verosímil, basta que corresponda a uma predisposição, a um desejo latente.

 

Pelo contrário, a satisfação é sempre incompleta. Somos insaciáveis, faz parte da nossa essência. E como tal os níveis de contentamento são ajustados a cada patamar atingido. Como escreveu Naipaul: "satisfaction solved nothing. It only opens up a new void, a fresh need." E, se mesmo assim, nem que seja por um instante, for atingida a satisfação plena esta é agridoce, pois que permanece a certeza que esta não pode durar para sempre.

 

Deste modo, será porventura mais fácil uma reeleição baseado nuns ligeiros e ténues sinais que demonstrem (mesmo que erroneamente) uma melhoria do que com o aviso Macmilaniano de "never had it so good".

 

A ser verdade quais são os incentivos que isto representa para um Governo em funções?

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Sexta-feira, 04.04.14

A oeste nada de novo

Na Assembleia da República assiste-se a mais um debate quinzenal. Nada de novo. Os mesmos argumentos retóricos repetidos uma e outra vez. O discurso pincelado com as palavras de ordem decidido por especialistas de marketing. 

 

No momento em que a alternativa se transformou em alternância iniciou-se a decadência da democracia, a morte acontece no momento que se decide que não há alternativas, que só há um caminho.

 

"...arranging and rearranging was Decadence, but the exhaustion of all possible permutations and combinations was death”

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Quarta-feira, 26.03.14

Tanto Mar

Adoro a expressão "all at sea". Faz-me sentir português: aquele sentimento aconchegante de pertença. Porque, pese embora conhecer o seu significado - confusão; perdido - sou incapaz de o apreender; há uma dessintonia entre o seu sentido e o que me faz sentir (calma, ausência de preocupações).

 

São os efeitos da cultura. Ora, ao contrário do que alguns pseudomodernos julgam, a cultura é um elemento definidor de um povo, não os torna melhores nem piores, mas diferentes. E, como tal, não pode ser esquecida na altura em que são implementadas políticas.

 

Infelizmente, os actuais governantes, parafraseado Naipaul, vêem-se ao mesmo tempo como os homens novos de Portugal e como os homens do Novo Portugal.

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Quinta-feira, 20.03.14

Manter um blog

The need to get the words & voices not only out—outside the sixteen-inch diameter of bone that both births & imprisons them—but also down, trusting them neither to the insubstantial country of the mind nor to the transient venue of cords & air & ear; seems for Kate—as for anyone from a Flaubert to a diarist to a letter-fiend—a necessary affirmation of an outside, some Exterior one’s written record can not only communicate with but inhabit.

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Quarta-feira, 19.03.14

O guia do bem obedecer

 

Nos diversos relatos sobre censura é referido que a sua imposição é mais psicológica que efectiva. Por outras palavras, a simples existência de censura prévia reforça a autocensura, que ainda consegue ser mais limitativa do que aquela: a verdadeira submissão não é obedecer mas antecipar ordens.

 

Por isso é que estremeço sempre que surgem apelos ao silencio quanto a determinadas matérias que poderão irritar os "mercados" e que sorri quando ontem ouvi a Merkel conceder apoio público a "qualquer decisão que Portugal tomar.

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Sexta-feira, 07.03.14

Até à eternidade

Uma das maiores contradições da humanidade é sermos conscientes da "universal" finitude mas continuar a raciocinar usando a dicotomia provisório/permanente.  

 

Somos mais exigentes com o que percepcionamos de permanente - quer seja uma habitação, um namoro ou uma política - e mais tolerantes com o que se julga que é efémero; apesar de na prática o tempo de qualquer uma delas até poder ser equivalente. 

 

Deste modo, percebe-se o desconforto do Governo ao ter que admitir que os cortes salariais são permanentes, por que tal admissão o impede de atenuar a resistência a medidas gravosas apelidando-as de provisórias.

 

Ora, o Poder serve-se desta dicotomia consoante os interesses e circunstâncias - também é necessário "vender" a ideia de um mundo perene e perpétuo (será que a civilização de manteria se fosse descoberto que todo o universo terminaria no prazo de 100 anos?). É uma forma de subjugação e de manutenção do statu quo (por alguma razão as religiões contrapõem a brevidade da vida terrena cheia de sofrimento versus a felicidade eterna no reino dos deuses).

 

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Quarta-feira, 26.02.14

Ucrânia

 

Ao ouvir os apelos da diplomacia internacional sobre o povo ucraniano lembro-me sempre da forma como se iniciou a findou 2ª Guerra Mundial. O seu "inicio oficial" deu-se com a invasão da Polónia pelas tropas alemãs e as consequentes declarações de guerra de França e Inglaterra a fim de defender a independência da Polónia; e, no final, depois de milhões de mortes, o que aconteceu à Polónia? Acabou sob o jugo da URSS.

 

Natural, cada país defende os seus interesses. Sim, só tenho pena que o Governo de Portugal ainda não tenha percebido isso.

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Sexta-feira, 21.02.14

"Decadência", por Montenegro

"A vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor", com esta frase Montenegro, líder parlamentar do PSD, consegue exemplificar com uma perfeição cristalina a definição de decadência de Pynchon.

 

Para este escritor, a decadência é o afastamento do que é humano, quanto mais nos afastamos menos humanos nos tornamos. E como somos menos humanos, procura-se impingir a humanidade que se perdeu em objectos inanimados e teorias abstractas. E alguém que fala de pessoas como se fosse pontos ou curvas num gráfico tem crenças não-humanas.

 

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Quinta-feira, 20.02.14

Do Futuro

No "Admirável Mundo Novo" de Huxley a ordem e o desenvolvimento económico são os seus alfa e ómega. Em vez de um sistema democrático as decisões são tomadas por um sábio, a bem de todos. Toda a actividade humana é utilitarista: de produção e consumismo exacerbado - um simples passeio no parque, por não preencher estes requisitos (não é produtivo nem é consumível), é mal visto pela sociedade.

 

Os indivíduos aspiram pertencer às "classes (castas) superiores", mas ficam gratos por não pertencerem à "classe inferior" (não somos a Alemanha, mas também não somos a Grécia); e, se mesmo assim existir um sentimento de infelicidade, há sempre "soma": uma droga não viciante e sem efeitos colaterais, o perfeito anti-depressivo. Uma sociedade obcecada com a aparência e com a juventude, onde não há envelhecimento: todos mantêm a aparência de 20 anos até à sua morte, que sucede aos 65 anos.

 

A coincidência entre esta distopia com os "desejos" e prática da maioria da população é aterradora, mas também o que torna aquele livro ainda hoje, passados 80 anos da sua publicação, relevante.

 

E é difícil não regressar a Huxley quando se ouve o Ministro da Economia a falar de investigação direccionada para a produção imediata; uma deputada portuguesa que considera não ser premente para a sociedade actual a investigação de flora que não seja nacional; ou ainda ler que Vítor Gaspar que, pegando num artigo de Hayek de 1939, defende a limitação do poder dos estados democráticos perante a automatização de políticas supranacionais.

 

Estaremos dispostos a trocar tudo por ordem, segurança e conforto material?

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Quarta-feira, 12.02.14

Fortuna

"...life's single lesson: that there is more accident to it than a man can ever admit to in a lifetime and stay sane"

- Pynchon - "V."

 

Toda a ideologia é uma construção da realidade (por isso é de recear os que se intitulam de realistas). E essa construção parte de premissas. Ora, a premissa de parte da direita liberal é o individualismo. O indivíduo controla o seu futuro. Com muito trabalho e esforço o sucesso - no sentido material (a definição de sucesso é outra questão) - está garantido. Por sua vez, a sua ausência é da responsabilidade de cada um, há um elemento de culpa no insucesso (como país isso também acontece: somos apelidados de mandriões, incapazes de gerir os nossos destinos, etc).

 

Deste modo, à questão que a "New Statesman" coloca - se a declaração de Cameron que dinheiro não é obstáculo para ajudar as vítimas das cheias não é contraditória da defesa da austeridade como a única alternativa (onde já ouvi isto?) e como tal sem meios para combater o aumento da pobreza e dos sem-abrigo, que terá que ser tolerada - deve ser levado em conta a ideologia de Cameron. 

 

Para o Primeiro-Ministro Britânico as cheias são actos de natureza pelo que as suas vítimas não poderão ser responsabilizadas de tais consequências, ao contrário dos pobres e dos sem-abrigo que se encontram nessa situação por culpa própria. 

 

Por isso é sempre bom lembrar aos seguidores desta ideologia que fortuna também é sorte.

 

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Quinta-feira, 06.02.14

Tolerância Zero

De acordo com Dr. Bronowski* todo o conhecimento pode ser preciso mas nunca totalmente certo, haverá sempre uma tolerância de incerteza, razão pela qual defendia que o Princípio da Incerteza de Heisenberg deveria chamar-se Princípio de Tolerância.

 

"Todo o conhecimento, toda a informação trocada entre seres humanos, apenas pode ser trocada dentro de um "ambiente de tolerância" (nunca num ambiente de certeza completa), quer seja ciência, literatura, política ou religião."

 

Ora, numa democracia a tolerância, um dos seus elementos indissociáveis, é entendido quase exclusivamente na relação com o outro, e nunca em relação ao nosso próprio pensamento: a consciência que este é falível e como tal poderá estar errado.

 

A insistência no argumento da ausência de alternativas corresponderia deste modo a uma tolerância zero, isto é, a negação de democracia. 

 

* Foi-me dado a conhecer através deste magnífico texto.

 

 

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Terça-feira, 28.01.14

Dízimo

Se o cristianismo para se consolidar e atingir a supremacia usurpou termos e tradições pagãs, actualmente sucede o mesmo processo com o "capitalismo". A expressão "criadores de emprego", a infalibilidade do mercado e os sacrifícios em nome destes - que não se devem atacar - são todos conceitos de origem religiosa.

 

Naturalmente, o passo seguinte é o dízimo: Europa gastou um décimo da sua riqueza para salvar bancos (da próxima vez que "uma pessoa muito responsável" afirmar que não há dinheiro para o Estado Social apresentem esta notícia).

Esta apropriação da iconografia cristã e a tomada de assalto do espaço público de questões puramente económicas tem ainda outros efeitos, porventura ainda mais perniciosos. Com efeito, qualquer visualização de um símbolo relacionado com dinheiro leva a que as pessoas dêem mais importância aos seus interesses do que ajudar terceiros*.

 

Amen

 

 

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Segunda-feira, 27.01.14

Oh não, mais um artigo sobre a Praxe

Eu fui praxado e praxei umas raras vezes - não só porque na qualidade de trabalhador-estudante o meu tempo escasseava mas sobretudo porque tinha coisas bem mais interessantes para fazer.

 

No entanto, num momento que associa-se a praxe a assassinos sociopatas que faz o "Das Experiment" parecer uma brincadeira de crianças, o que perante os relatos que por aí se ouvem não parece estar longe da verdade, gostava de dar o meu relato sobre a minha experiência de praxe (um exercício complicado face à tendência muito natural de se dar ênfase aos aspectos positivos do passado e esquecer os negativos).

 

Em teoria

 

Em teoria, o que é muitas vezes esquecido, a praxe serve os caloiros. Parece piada, eu sei, daí o uso do termo "teoria". Adiante.

 

O mais notório seria o peddy paper que era organizado anualmente pela praxe para que os caloiros - muitos acabados de chegar ao Porto pela primeira vez - pudessem conhecer os pontos mais importantes da cidade. Como é óbvio esta iniciativa não é representativa da praxe e podia (e devia) ser replicada pelas associações de estudantes.

 

Mais representativo da praxe é a "alcunha" dada aos caloiros, que usualmente reflectem uma determinada característica física. Esta deveria desconstruir esse "defeito", retirando-lhe a carga negativa. A "humilhação" do uso dessa alcunha, como outras igualmente benignas, serviria igualmente para estabelecer um espírito de grupo entre os caloiros contra os "doutores".

 

A praxe seria também um rito de passagem da juventude para a idade adulta: a "derradeira oportunidade" de se fazerem parvoíces em público.

 

Na prática

 

Na prática e na maior parte das vezes a praxe está ao serviço dos "doutores". Uns estão à procura de namoro. Outros, os mais perigosos, levam a praxe e eles próprios demasiado a sério: nada surpreendente para miúdos de 20 e poucos anos que estão pela primeira vez em contacto com uma situação real de poder (vd. "Das experiment"). 

 

Por outro lado, a praxe degrada-se porque sofre de um dos problema das falsas tradições: repetem acriticamente um comportamento apenas por que este existe no passado. A tradição pela tradição.

 

Conclusão

 

Ao contrário dos mitos dos defensores da praxe, esta não cria amizades, não integra - com efeito, do meu grupo de amigos (amigos mesmo) da faculdade, somente metade estiveram na praxe; estes nunca se sentiram excluídos nem foram coagidos a fazer parte.

 

É simplesmente uma carolice que serve ou devia servir para dar umas gargalhadas não à custa dos caloiros, mas com estes; não um conjunto de provas para serem superadas, com vista a ser alcançado o "lugar de doutor".

 

Tudo para além disto é abuso sem sentido.

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Terça-feira, 21.01.14

Por Ford

"Have you never harrowed yourself halfway to - disorder - with that  single word? Why."

- Thomas Pynchon - "V."

 

Parte da esquerda europeia rendeu-se à "preguiça conservadora": deixou de questionar; prefere a ordem anestesiada da falta do uso do "porquê".

 

Num momento em que as 85 pessoas mais ricas do mundo têm mais dinheiro do que a metade da população mundial (3,5 mil milhões de pessoas) - e a tendência é que a desigualdade aumente - a esquerda não só não toma posição para reduzir a desigualdade como consegue ainda apoiar a redução dos impostos sobre as empresas. 

 

Mas se não teremos a desordem institucional causada pelo "porquê", iremos ter a desordem causada pelo desespero, porque, como se costuma dizer agora, este caminho é insustentável.

 

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Quinta-feira, 16.01.14

Di' qualcosa di sinistra

Querida Esquerda, ouve o Boss: 

Tell me someone now, what's the price
I wanna buy some time and maybe live my life
I wanna have a wife, I wanna have some kids
I wanna look in their eyes and know they'll stand a chance

 

 

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Quarta-feira, 08.01.14

Onda

 

Dezenas de pessoas, colocando em perigo a sua própria segurança, afluem às zonas costeiras para observar as ondas gigantes que se multiplicam no litoral de Portugal. Nas imagens recolhidas, cada rebentação era recebida com gargalhadas, gritos e gestos de exultação. 

 

No fantástico "White Noise", DeLillo procura explicar este encanto: por que razão pessoas decentes, responsáveis ficam fascinadas por catástrofes, desejando sempre algo maior, mais arrebatador.

 

Para o autor há um desejo e uma necessidade de catástrofe. Necessidade porque é a única forma de romper com o "brain fade", causado pelo bombardeamento de informação diária; de ultrapassar o ruído branco e agarrar a atenção do público. E desejo porque no mundo pós-moderno a televisão transforma tudo em entretenimento, em espectáculo, o que leva a que as catástrofes tenham algo de desejável até de fantasioso. 

 

No entanto, creio que existe algo mais do que meros efeitos causados pelos mass media, mais intrínseco à condição humana. Um fascínio pelo poder da natureza, desde a mais simples e hipnótica lareira ao poder destrutivo de cataratas gigantes.

 

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Sexta-feira, 03.01.14

Atropos

Atropos, também conhecida como "Inevitável", é uma das três Moiras - as deusas do Destino. Ela escolhe o mecanismo da morte e com a sua tesoura corta o fio da vida de todos os mortais.

 

Na sua infinita sabedoria, os Gregos reservaram a inevitabilidade para a morte.

 

Infelizmente em Portugal há uns quantos de tesoura em riste, apregoando inevitabilidades, cortando a torto e a (pouco) direito, tornando o fio da vida cada vez mais frágil, raro.

 

Estes, porém, não são nenhuns Atropos, são apenas Tontos.

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Quinta-feira, 19.12.13

Do frio

Sim, gosto de frio. Não "per si". Gosto de frio porque me permite sentir quentinho. Hum...mas antes que este texto se transforme numa redacção da quarta classe, vou dar a palavra a Melville:

 

"Eu digo: para realmente se desfrutar de calor, uma pequena parte de nós deve estar fria, pois não há qualidade neste mundo que exista sem contraste. Nada existe em si. (…) Por esta razão, um quarto nunca deve ser equipado com aquecimento, que é um dos desconfortos de luxo dos ricos. Para alcançar o apogeu deste prazer é necessário ter apenas o cobertor entre nós e o ar frio exterior. Então estará deitado como uma faísca calorosa, no coração de um cristal árctico. "

 

 

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E porque é Natal..

Na tradição deste blog transcrevo o texto escrito há cerca de 12 anos:

 

Presépio, não acham um objecto estranho. Reparem bem nas suas características:

 

- Tem um bebé todo nu, ao centro, deitado em palhas (aqui a doutrina divide-se porque a escola de Lisboa acha que está estendido, enquanto que a escola de Coimbra considera que está deitado) o que em pleno Dezembro, com o frio que está, não deve ser nada agradável.

 

- De um lado tem a mãe e do outro o padrasto completamente vestidos. Porque é que não emprestam um pouco de roupa ao bebé?

 

- A mãe não devia estar também deitada? Acabou de passar por um parto e o bebé até é grande (ou será que não está à escala?) deve estar cansada, coitada?

 

- O padrasto está apoiado com o pau. Será que usou o pau para bater na Maria, ora se ela estava casada com ele e teve um filho que não é de ele apenas pode significar uma coisa: ele é cornudo! O diabo também tem cornos e está vermelho de raiva. Será coincidência? Mas para além disto, o José é mesmo coitadito porque é casado e ainda nada porque a Maria é virgem!

 

- Temos ainda um burro e uma vaca! Ora aqui é que está a parte inteligente do presépio! As pessoas costumam explicar aos filhos que estão lá para aquecer o bebé. Ora se tivesse muito frio ele não estava nu! Na verdade, estes animais são o alter-ego da Maria e do José. Basta pensar um pouco: o que é que nós chamamos a uma mulher que está casada com um e tem um filho do outro? Uma vaca! E o que nós chamamos a alguém que acredita na história que foi o Espírito Santo que lhe engravidou a mulher e que ela continua virgem? Um burro!

 

PS: Porque é que há muitos presépios com neve? Alguém alguma vez viu nevar em pleno deserto!

 

PSD: Este artigo não quer ofender de qualquer forma as crenças das pessoas.

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Terça-feira, 17.12.13

Visto Dourado

"In this world, shipmates, sin that pays its way can travel freely, and without passport; whereas Virtue, if a pauper, is stopped at all frontiers."

- Herman Melville

 

Enquanto que Espanha, Portugal, Grécia e Chipre "oferecem" visas a estrangeiros que invistam no mercado imobiliário, a Amnistia Internacional acusa os "os países europeus de se assemelharem a uma "fortaleza" para se proteger dos refugiados sírios, que apenas estão a receber "em números lamentavelmente baixos."

 

 

publicado por CRG às 13:10 | link do post | comentar
Segunda-feira, 16.12.13

Sobre o relógio do Portas

“...I give you the mausoleum of all hope and desire...I give it to you not that you may remember time, but that you might forget it now and then for a moment and not spend all of your breath trying to conquer it. Because no battle is ever won he said. They are not even fought. The field only reveals to man his own folly and despair, and victory is an illusion of philosophers and fools.”

 

- Faulkner

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Terça-feira, 10.12.13

Mandela

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Sexta-feira, 06.12.13

Dos que ficam

O post anterior do "regressado" ao blog JSP, lembra-me aquela velha anedota romena, que poderá ser o nosso futuro daqui a 30 anos:

 

"Dois velhotes, antigos colega de escola, encontram-se no avião de Nova Iorque para Paris e fazem o recenseamento da turma. O Miguel? Ginecologista em Milão, já vai na terceira mulher. O Costa? Tem uma refinaria na Venezuela, solteiro. O Mário? Morreu, coitado, com uma infecção esquisita, na Algéria. O André? Em Israel, director de um banco. O Hugo? Engenheiro em Basileia, cinco filhos. Mas e o João? O João ficou no mesmo sítio, no Porto. Admiras-te? De todo! O João sempre foi aventureiro."

publicado por CRG às 10:55 | link do post | comentar
Terça-feira, 03.12.13

Sound and Fury

“...will be words of sound only, and though they may amuse the ear, they cannot inform the mind”

- Thomas Paine. “Common Sense.”

 

O discurso político que privilegia o som - os soundbites - não informa, desinforma, corrói a confiança. A duplicidade multiplica-se: a cobardia mascara-se de responsabilidade, os esforços dos outros são para continuar e por muitos anos; o insucesso transforma-se em sucesso.

publicado por CRG às 13:15 | link do post | comentar
Sexta-feira, 22.11.13

JFK

"His place in legend is secure. He bought off the skeptics by dying early, horribly, unnecessarily."

- Don DeLillo "White Noise" (sobre Elvis mas que também poderia ser sobre o JFK)



publicado por CRG às 14:52 | link do post | comentar
Terça-feira, 19.11.13

Paraíso Perdido

“Never can true reconcilement grow, where wounds of deadly hate have pierced so deep.”

- John Milton

 

Este era o verdadeiro desafio da União Europeia: permitir que a reconciliação florescesse num Continente coberto por feridas profundas de ódio mortal. A integração económica seria um mero instrumento, o objectivo último sempre foi a paz.

 

Em virtude, porventura, de voluntarismo exacerbado a UE foi construída sem a prudência necessária, designadamente não foram considerados os ensinamentos de Thomas Paine, nos quais este alerta que se é permitido a existência numa estrutura governativa - aqui no seu sentido mais lato possível - de uma potência mais forte que os demais, esta acabará por governar; e apesar de outros poderem bloquear ou servirem de contrapoder, os seus esforços serão contraproducentes; no fim os interesses daquela acabarão sempre por triunfar.

 

Ora, o triunfo dos interesses da parte mais forte será entendido, mais cedo ou mais tarde, pelos restantes como uma opressão. A sua manutenção na união torna-se numa obrigatoriedade - a opção menos má. Estes deixarão de se percepcionar como participantes livres, apenas como participantes numa farsa. Por sua vez, a outra parte olhará com desprezo os mais fracos: um peso morto sem um pingo de gratidão.

 

Um "casamento forçado" que criará novos ressentimentos.

publicado por CRG às 16:32 | link do post | comentar
Sexta-feira, 15.11.13

Exile on Main St

Há uns tempos, Pacheco Pereira contava que muitas vezes lhe perguntavam: "haverá uma revolução?". Se no início da crise existiram algumas manifestações violentas na Grécia, a verdade é que estas foram diminuindo de intensidade à medida que a austeridade foi fazendo mais vítimas.

 

Pode parecer paradoxal mas como escreve Manea, a vítima ganha gradualmente cepticismo e resignação.

 

Neste momento, a emigração de portugueses não é só geográfica. Os que ficam procuram ignorar a esfera pública. Fogem da "cacofonia política". Tentam apenas sobreviver, ansiando um tempo sem acontecimentos.

 

Portugal tornou-se num país de exilados.

publicado por CRG às 16:49 | link do post | comentar
Segunda-feira, 11.11.13

11 do 11

I will come to a time in my backwards trip when November eleventh, accidentally my birthday, was a sacred day called Armistice Day. When I was a boy, and when Dwayne Hoover was a boy, all the people of all the nations which had fought in the First World War were silent during the eleventh minute of the eleventh hour of Armistice Day, which was the eleventh day of the eleventh month.

It was during that minute in nineteen hundred and eighteen, that millions upon millions of human beings stopped butchering one another. I have talked to old men who were on battlefields during that minute. They have told me in one way or another that the sudden silence was the Voice of God. So we still have among us some men who can remember when God spoke clearly to mankind.

Armistice Day has become Veterans' Day. Armistice Day was sacred. Veterans' Day is not.

So I will throw Veterans' Day over my shoulder. Armistice Day I will keep. I don't want to throw away any sacred things.

What else is sacred? Oh, Romeo and Juliet, for instance.

And all music is.


- Kurt Vonnegut

publicado por CRG às 11:11 | link do post | comentar
Quarta-feira, 06.11.13

Ensaio sobre a Cratenice

"Teríamos de trabalhar mais de um ano sem comer, sem utilizar transportes, sem gastar absolutamente nada só para pagar a dívida"

- Ministro Nuno Crato


Por um segundo vamos imaginar que era possível sobreviver sem comer durante um ano. De imediato a maior parte dos cafés, restaurantes, mercearias, supermercados, hipermercados entravam em insolvência. Seguiam-se os seus fornecedores. As empresas de transporte ficariam sem clientes e com uma dívida galopante. Sem consumo não havia necessidade de publicidade, todos os media fechavam, empresas de marketing. Milhões de desempregados. Não será necessário dar mais exemplos para perceber que neste mundo imaginário de Crato a dívida não só não seria paga como se agravaria. 

 

Sempre se poderá dizer que a frase de Crato não era para ser interpretada de forma literal, era uma metáfora para demonstrar o peso da dívida. Em qualquer dos casos esta intervenção é esclarecedora por dois motivos. Em primeiro lugar, demonstra a forma como o Governo percepciona o mercado interno como sendo um fardo. Em segundo, revela em todo o seu esplendor a visão estrita e causal das suas políticas, que nunca levam em linha de conta as consequências sistémicas que acarretam.

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Segunda-feira, 04.11.13

Achismo e Bom senso

No seu artigo do passado Sábado, Henrique Monteiro defende a abertura "dos órgãos superiores de Justiça - STJ e TC a quotas minoritárias de não juristas, desde que com mais de 35 anos de idade". Uma vez que, acrescenta Henrique Monteiro, "em democracia não pode haver órgãos limitados a especialistas" e "que não falta bom senso (a capacidade principal de julgar) a profissionais de outros ramos, mesmo sem qualquer formação superior".

 

Por onde começar? Em primeiro lugar, vou parar de rir. Em segundo, vou passar ao lado do conceito de que o bom senso nasce aos 35 anos e nem vou relembrar ao Henrique Monteiro que o STJ, fora dos casos (raros) previstos na lei, apenas conhece matéria de direito e vou-me concentrar na sua visão de jurista. 

 

Bem sei que a imagem dos juristas, muito por culpa dos próprios, encontra-se degradada. A opinião corrente é de que não é necessária nenhuma qualificação especial para ser advogado ou juiz: basta ler a lei e escrever umas coisas, uns floreados, se possível com termos técnicos. Esperava, porém, que o ex-director do Expresso, que teve e ainda deve ter alguns colegas jornalistas formados em direito, não tivesse essa noção primária e que chegasse ao cúmulo de propor a existência de juízes autodidactas. 

 

A interpretação de uma norma - nos processos que chegam ao STJ ainda mais - não se cinge a uma leitura literal da mesma. Nem é um exercício de bom senso. É uma operação técnica que exige prática e estudo. Estudar o sistema jurídico português e muitas vezes outros sistemas legislativos a fim de ser efectuado uma análise comparativa; estudar os precedentes normativos e os trabalhos preparatórios que antecederam a aprovação da norma; perceber quais os fins da norma...

 

Este exercício é - tal como me ensinou o meu professor de Filosofia do Direito - comparável à interpretação que um pianista faz de uma pauta. Assim, da mesma forma que um pianista amador pode produzir em som as notas escritas, mas apenas um pianista profissional poderá através da sua arte fazer música; um leigo até poderá traduzir a norma, mas apenas um jurista poderá transformar a norma em justiça.

publicado por CRG às 15:25 | link do post | comentar

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