Fortuna

"...life's single lesson: that there is more accident to it than a man can ever admit to in a lifetime and stay sane"

- Pynchon - "V."

 

Toda a ideologia é uma construção da realidade (por isso é de recear os que se intitulam de realistas). E essa construção parte de premissas. Ora, a premissa de parte da direita liberal é o individualismo. O indivíduo controla o seu futuro. Com muito trabalho e esforço o sucesso - no sentido material (a definição de sucesso é outra questão) - está garantido. Por sua vez, a sua ausência é da responsabilidade de cada um, há um elemento de culpa no insucesso (como país isso também acontece: somos apelidados de mandriões, incapazes de gerir os nossos destinos, etc).

 

Deste modo, à questão que a "New Statesman" coloca - se a declaração de Cameron que dinheiro não é obstáculo para ajudar as vítimas das cheias não é contraditória da defesa da austeridade como a única alternativa (onde já ouvi isto?) e como tal sem meios para combater o aumento da pobreza e dos sem-abrigo, que terá que ser tolerada - deve ser levado em conta a ideologia de Cameron. 

 

Para o Primeiro-Ministro Britânico as cheias são actos de natureza pelo que as suas vítimas não poderão ser responsabilizadas de tais consequências, ao contrário dos pobres e dos sem-abrigo que se encontram nessa situação por culpa própria. 

 

Por isso é sempre bom lembrar aos seguidores desta ideologia que fortuna também é sorte.

 

publicado por CRG às 13:11 | link do post | comentar