Segunda-feira, 11.11.13

11 do 11

I will come to a time in my backwards trip when November eleventh, accidentally my birthday, was a sacred day called Armistice Day. When I was a boy, and when Dwayne Hoover was a boy, all the people of all the nations which had fought in the First World War were silent during the eleventh minute of the eleventh hour of Armistice Day, which was the eleventh day of the eleventh month.

It was during that minute in nineteen hundred and eighteen, that millions upon millions of human beings stopped butchering one another. I have talked to old men who were on battlefields during that minute. They have told me in one way or another that the sudden silence was the Voice of God. So we still have among us some men who can remember when God spoke clearly to mankind.

Armistice Day has become Veterans' Day. Armistice Day was sacred. Veterans' Day is not.

So I will throw Veterans' Day over my shoulder. Armistice Day I will keep. I don't want to throw away any sacred things.

What else is sacred? Oh, Romeo and Juliet, for instance.

And all music is.


- Kurt Vonnegut

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Quarta-feira, 06.11.13

Ensaio sobre a Cratenice

"Teríamos de trabalhar mais de um ano sem comer, sem utilizar transportes, sem gastar absolutamente nada só para pagar a dívida"

- Ministro Nuno Crato


Por um segundo vamos imaginar que era possível sobreviver sem comer durante um ano. De imediato a maior parte dos cafés, restaurantes, mercearias, supermercados, hipermercados entravam em insolvência. Seguiam-se os seus fornecedores. As empresas de transporte ficariam sem clientes e com uma dívida galopante. Sem consumo não havia necessidade de publicidade, todos os media fechavam, empresas de marketing. Milhões de desempregados. Não será necessário dar mais exemplos para perceber que neste mundo imaginário de Crato a dívida não só não seria paga como se agravaria. 

 

Sempre se poderá dizer que a frase de Crato não era para ser interpretada de forma literal, era uma metáfora para demonstrar o peso da dívida. Em qualquer dos casos esta intervenção é esclarecedora por dois motivos. Em primeiro lugar, demonstra a forma como o Governo percepciona o mercado interno como sendo um fardo. Em segundo, revela em todo o seu esplendor a visão estrita e causal das suas políticas, que nunca levam em linha de conta as consequências sistémicas que acarretam.

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Segunda-feira, 04.11.13

Achismo e Bom senso

No seu artigo do passado Sábado, Henrique Monteiro defende a abertura "dos órgãos superiores de Justiça - STJ e TC a quotas minoritárias de não juristas, desde que com mais de 35 anos de idade". Uma vez que, acrescenta Henrique Monteiro, "em democracia não pode haver órgãos limitados a especialistas" e "que não falta bom senso (a capacidade principal de julgar) a profissionais de outros ramos, mesmo sem qualquer formação superior".

 

Por onde começar? Em primeiro lugar, vou parar de rir. Em segundo, vou passar ao lado do conceito de que o bom senso nasce aos 35 anos e nem vou relembrar ao Henrique Monteiro que o STJ, fora dos casos (raros) previstos na lei, apenas conhece matéria de direito e vou-me concentrar na sua visão de jurista. 

 

Bem sei que a imagem dos juristas, muito por culpa dos próprios, encontra-se degradada. A opinião corrente é de que não é necessária nenhuma qualificação especial para ser advogado ou juiz: basta ler a lei e escrever umas coisas, uns floreados, se possível com termos técnicos. Esperava, porém, que o ex-director do Expresso, que teve e ainda deve ter alguns colegas jornalistas formados em direito, não tivesse essa noção primária e que chegasse ao cúmulo de propor a existência de juízes autodidactas. 

 

A interpretação de uma norma - nos processos que chegam ao STJ ainda mais - não se cinge a uma leitura literal da mesma. Nem é um exercício de bom senso. É uma operação técnica que exige prática e estudo. Estudar o sistema jurídico português e muitas vezes outros sistemas legislativos a fim de ser efectuado uma análise comparativa; estudar os precedentes normativos e os trabalhos preparatórios que antecederam a aprovação da norma; perceber quais os fins da norma...

 

Este exercício é - tal como me ensinou o meu professor de Filosofia do Direito - comparável à interpretação que um pianista faz de uma pauta. Assim, da mesma forma que um pianista amador pode produzir em som as notas escritas, mas apenas um pianista profissional poderá através da sua arte fazer música; um leigo até poderá traduzir a norma, mas apenas um jurista poderá transformar a norma em justiça.

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Domingo, 03.11.13

Podia ser sobre Portugal

 

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Sexta-feira, 01.11.13

"Será tarde e será de noite"

Em 2012, 120 mil portugueses - quase a população total de Leiria - deixaram do país. "Eu partira, sempre acabara por partir! Culpado por não o ter feito mais cedo e culpado por ter acabado por fazê-lo", descreve Manea a sua própria emigração. Quantos destes 120 mil não pensarão o mesmo. A minha geração destruída. Destruída não por drogas, sexo, vícios vários como a de Ginsberg, mas ambas destruídas pela loucura.

 

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Quarta-feira, 30.10.13

Podia ser sobre Portugal

"Nada é sério, nada é grave, nada é verdade nesta cultura de panfletários sorridentes. Sobretudo, nada é incompatível..."

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Terça-feira, 29.10.13

País dos poetas mortos

Em "Seize The Day", Bellow critica, entre outras, a ideia romântica de que o presente é tudo o que há; o passado e o futuro não existem. A personagem principal (Tommy Wilhelm), um misto de orgulho e de baixa auto-estima, encontra-se numa profunda crise. Sem dinheiro e sem trabalho procura uma solução rápida, alguém ou algo que o ajude a ultrapassar a crise. Tommy acaba por se deixar seduzir pelo "carpe diem" do Dr. Tamkin, e, seguindo o seu conselho, arrisca as suas últimas poupanças num investimento bolsista arriscado, que não resultou.

 

Durante anos, Portugal, a fim de cumprir o défice de 3% do PIB via-se obrigado a tomar medidas ad-hoc, comprometendo receitas futuras e respectiva sustentabilidade das contas públicas (como agora se costuma dizer).

 

Com a troika o "carpe diem" à Dr. Tamkin tomou novas proporções. Em nome de um objectivo irrealizável destroi-se a economia, a sociedade e o futuro: um percurso suicida. Nada surpreendente pois, tal como escreveu Unamuno, "Portugal é um povo de suicidas, talvez um povo suicida."

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Segunda-feira, 21.10.13

I've got a cunning plan

No último episódio da quarta série do "Blackadder"- toda ela passada nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial - os generais ordenam um novo ataque de infantaria, uma marcha a pé contra a linha inimiga. Ciente que será um esforço em vão, Blackadder tenta sem resultado escapar alegando problemas mentais e acaba por morrer na terra de ninguém, porque, como ele diz, como é que alguém podia reparar noutro louco no meio de tanta loucura.

 

Lembrei-me deste episódio ao ver o comentário dominical de Marcelo Rebelo Sousa. Neste, o comentador louva a opção do PR de não requerer a fiscalização preventiva do OE porquanto a fiscalização sucessiva demorará até fins de Março. E, nessa altura, a Troika estaria de partida, pelo que não teria outra opção que não aceitar a correcção da meta do défice. Tanto mais, acrescenta MRS, que a meta do défice do OE é uma virtualidade, que ninguém acredita.

 

A loucura institucionalizada: ao mesmo tempo que se sabe que os esforços pedidos - cortes nas pensões e nos salários acima de € 600,00 - serão em vão e contraproducentes, defende-se a manutenção dessa medida por alguns meses de forma a manter as aparências, com claro menosprezo do sofrimento infligido.

 

Louco, tudo louco.

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Segunda-feira, 14.10.13

Impotência dos sem poder


Our helplessness did not seem compatible with the idea of a man-made event.

 

A presente crise europeia é um evento puramente humano; foi fabricada e agravada pela acção e omissão de responsáveis políticos e financeiros. A insistência no erro da austeridade poderá ser, na sua interpretação mais benigna, um efeito da falácia dos custos afundados.

 

No entanto, o factor mais preocupante é a incapacidade do cidadão comum ou do país comum alterar este statu quo. Se uma política que foi devidamente comprovada pela experiência e pela teoria como um erro e que tem como oposição a maioria da população consegue ser imune à mudança, será possível falar em democracia.

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Terça-feira, 08.10.13

Manter a morte longe

 

Até à década de 60 do século passado, o indivíduo era invisível, na certeira expressão de Ellison; a sua identidade era abafada pelo manto da sua classe social, origem étnica ou nacionalidade. 

 

A partir desse momento, existiu uma revolta individualista: a ânsia de ser diferente, de marcar diferença, de ser visível. E, como todas as revoltas, chegou-se ao extremo: os "novos" desportos presentes nos X-Games são individuais; e até o próprio marketing - num golpe de asa irónico - serve-se do desejo de ser único e especial para vender mercadoria produzida em massa. 

 

Actualmente, o individualismo excessivo não nos tornou mais visíveis, apenas mais centrados nos nossos problemas, reduziu-se a empatia e afastou-se a ideia de pertença. 


Sim, é verdade que "todos morrem sozinhos". A finitude é uma característica intrínseca de cada indivíduo. E, como escreveu DeLillo "to become a crowd is to keep out death". Por esse motivo há quem esteja disposto a dar a sua vida por uma causa, por uma instituição, pela família ou por um país, sabendo que ao contribuir para o bem comum atinge a imortalidade, afasta a morte, a sua presença perpetua-se no tempo.


Deste modo, uma sociedade individualista é uma sociedade condenada por que não conseguirá "manter a morte longe". 

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Sexta-feira, 27.09.13

Uma nova casa

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Quarta-feira, 25.09.13

Tempos Modernos

Um dos grandes feitos dos ideólogos liberais foi transformar as empresas em entidades benignas de criação de emprego. Longe vão os tempos do conceito marxista da mais-valia - a diferença entre o valor do produto e a soma do valor dos meios de produção e do valor do trabalho - e da exploração do homem pelo homem. 


Neste sentido, as políticas públicas devem acarinhar estas ONGs de emprego, se possível dando-lhes incentivos fiscais, não as taxar ou, no mínimo, reduzir o IRC a níveis simbólicos.

 

Sucede que o emprego não é um objectivo das empresas, é uma obrigatoriedade, um efeito, um mal menor necessário para a criação de riqueza. Atenção, há excelentes empresas, que tratam os seus trabalhadores de forma excepcional, procurando dar-lhes as melhores condições, monetárias e não só. No entanto, o seu objectivo - legítimo - é fazer dinheiro, obter lucro.

 

Esta importância exagerada dada às empresas em detrimento dos restantes actores desequilibrou perigosamente o sistema. Tal como naquela história de crianças sobre qual é o órgão mais importante do corpo humano, também aqui todos os intervenientes são imprescindíveis. E, enquanto não for reposto o equilíbrio a presente crise não será ultrapassada.

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Terça-feira, 24.09.13

Inequality for all

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Quinta-feira, 19.09.13

É a política, estúpido!

"A austeridade pode ser autodestrutiva" e "as medidas tomadas foram contraproducentes" são conclusões óbvias, previstos por economistas keynesianos e comprovadas pela realidade.


Na verdade, tais conclusões apenas são surpreendentes e dignas de notícia porque constam do relatório elaborado pela equipa do economista-chefe de uma instituição (FMI), que não só é uma das principais promotoras desta via, como, pelos relatos, pretende manter essa mesma política autodestrutiva e contraproducente.


Como escreveu Ralph Ellison, "Without the possibility of action, all knowledge comes to one labeled "file and forget". E, é esta impossibilidade de acção que deveria servir de aviso para todos aqueles que olham para a política com desdém. Ter razão não é suficiente.

 

Enquanto não for combatido e vencido este bloqueio todos os estudos, toda a realidade, todo o conhecimento acabam por ser arquivados e esquecidos.

 

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Terça-feira, 17.09.13

Bom Aluno

Peter Ludlow argumenta que uma das interpretações do conceito "banalidade do mal", cunhado por Hannah Arendt, consiste em perceber o que acontece quando é apenas cumprida a "adequada" função dentro do sistema, seguindo a conduta prescrita em relação a esse sistema, enquanto se permanece alheado das consequências morais das acções do sistema, ou, pelo menos, ignorando essas consequências.

 

O infame episódio da TSU - após o anúncio de um corte brutal no rendimento "trabalho", Passos Coelho foi assistir a um concerto do Paulo de Carvalho - é um dos exemplos mais claros de como existe no Governo este alheamento dos efeitos (por vezes devastadores) que as medidas que propõe e defende provocam; o corte das pensões acima da quantia milionária de € 419,00 é apenas o exemplo mais recente*.

 

Infelizmente, este comportamento, tal como Ludlow refere, é bastante comum dentro de organizações altamente hierarquizadas, nas quais existem relações de subserviência. No entanto, o que confere ao "nosso" Governo uma característica peculiar é a forma como fundamenta as suas políticas com um alegado moralismo. 

 

Neste sentido, há no Governo uma contradição interna: a fim de serem alcançados os compromissos estabelecidos com os credores (fundamento moral) são adoptadas medidas, cujas consequências morais são, por sua vez, ignoradas.

 

*E a alternativa? Tal como existiu alternativa à "TSU" também haveria alternativa ao corte das pensões. No entanto, a questão mais importante é se será possível mudar o próprio sistema, isto é, a austeridade.

 

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Quarta-feira, 11.09.13

"...E viveram felizes para sempre"

Esta frase termina a maior parte das histórias que são contadas às crianças. Após uma série de desventuras, o fim desejado e alcançado é um estado perpétuo de felicidade. Desde novos que somos doutrinados que este estado corresponde ao alcançável e desejável - sem pressão, claro.

 

A felicidade tornou-se num vício e a sua impossibilidade de constância numa fonte inesgotável para o marketing e publicidade. Todos os produtos ou vendem a ideia de criação de felicidade ou que acrescem tempo livre às nossas vidas de forma a permitir fazer o que se gosta, que implicitamente é sinónimo de felicidade.

 

Sucede que a felicidade - como os escritores de distopias e os heroinómanos descobriram - apenas faz sentido se corresponder a um momento singular, único e especial. Caso contrário não haveria felicidade, apenas um torpor.

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Quarta-feira, 04.09.13

Atina

E a inevitável descida para o Algarve. Hordas de Hunos - um fenómeno também conhecido como "turismo em massa"- invadem a costa algarvia, deixando, onde antes havia pequenas vilas piscatórias, um rasto de aparthotéis, blocos de apartamentos e uma miscelânea de equipamentos de indústria hoteleira.

 

E, de todos os Hunos eu pertenço aos da pior estirpe: os que têm consciência que o são. Não só continuo a realizar as minhas investidas anuais como, por não gostar de outros Hunos e respectivas consequências, procuro locais pitorescos, calmos; o que leva a recomeçar ainda mais "desenvolvimento".

 

É assim de consciência pesada, que passo os dias ao sol, bebericando cerveja e alimentando-me de marisco. Vida dura.

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Sexta-feira, 23.08.13

Aren't holidays brilliant?

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Segunda-feira, 19.08.13

Açores

"21º célsius", comunicou o piloto da SATA num tom estranhamente jocoso, que apenas entendi no exacto momento que passei a porta de saída do Aeroporto João Paulo II (São Miguel) e levei com um estalo de bafo quente, tudo similar à humidade que havia sentido em Havana. As semelhanças com as caraíbas terminam aqui. Eu estava em Portugal. As ruas, as vielas, as montras, os prédios possuem aquele ambiente distintamente português. No entanto, os "nativos" falam de Portugal como no "continente" se fala da UE: uma pertença impessoal.

 

Esta indefinição foi ubíqua na "experiência Açores": um estado de tempo tão instável que deve enlouquecer o meteorologista mais zen; um nome originário de "Azul" para uma terra verde; um arquipélago no meio do Oceano Atlântico que privilegia a carne (e que carne magnífica) ao peixe e que prefere as lagoas ao oceano.

 

No fundo, os Açores é como o muro que divide a lagoa azul da verde nas Sete Cidades: não se compromete com nada e reserva-se o direito a ser singular. A ausência de crise de identidade revela-se na sua obsessão em colocar miradouros em tudo o que é sítio como a dizer: não tirem conclusões, esqueçam tudo, apenas olhem para mim e vejam como sou bela. E é.

 

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Sexta-feira, 26.07.13

CTT

 

Um dos primeiros actos da 2ª Guerra Mundial foi a tomada de assalto dos Serviços Postais da Polónia, sitos na cidade livre de Danzig. Tal não ocorreu por mero acaso. Os Serviços Postais são, repito, um símbolo da soberania nacional.

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Quarta-feira, 24.07.13

Moving to California Won't Make You Happy

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Sexta-feira, 19.07.13

Dúvidas

Na advocacia costuma-se dizer que "mais vale um mau acordo que uma boa demanda". E parece ser essa a visão dos dirigentes do Partido Socialista. Sucede que as duas situações são incomparáveis: na primeira hipótese existe um litígio, cuja resolução depende de uma decisão judicial; enquanto que neste eventual acordo de "salvação nacional" não se percebe em que medida existe um litígio que engloba o PS.

 

A presente crise governativa ocorreu em virtude de divergências entre o PSD e o CDS, que, segundo estes, foram entretanto sanadas. O PS não teve qualquer papel no eclodir desta crise - o que não é nada abonatório para o seu papel como oposição - , nem a sua acção poderá impedir a prossecução das medidas que a presente e legítima maioria parlamentar deseja impor.

 

Neste caso, por que razão foi chamado o PS para negociar? E negociar exactamente o quê?

 

Ontem, este mistério adensou-se ainda mais com os discursos da actual Ministra das Finanças e do 1º Ministro, que não só defenderam as medidas tomadas, demonstrando os seus fantásticos resultados (sic), como consideram que deve ser mantido o mesmo rumo.

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Quinta-feira, 18.07.13

Um rico vídeo

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Terça-feira, 16.07.13

Seven Nation Army

Se é verdade que o pensamento e a linguagem não se podem separar, porque a linguagem funciona como o suporte do pensamento. E que não há pensamento fora da linguagem, nem linguagem sem pensamento. Chega-se à conclusão de que um dos pilares da democracia - no sentido de debate de ideias - é o respeito pelas palavras (vd. "1984" de Orwell). 

 

Ora, recentemente tem-se assistido a uma degradação do discurso político: o uso excessivo de eufemismos (ex: "ajuda externa"); a disparidade entre a palavra e acção (ex: "irrevogável"); comunicações contraditórias e ininteligíveis (ex: Cavaco Silva). Tal degradação impossibilita qualquer hipótese de diálogo.

 

No entanto, o insucesso das conversações de "salvação nacional" - mais um conceito exemplificativo da perversidade do discurso hodierno - não se reduz a esta impossibilidade de diálogo, mas sim à impossibilidade objectiva da mesma. Os problemas que afligem uma nação nunca poderão ser resolvidos, num simples passe de magia, com a realização de uma ou várias reuniões.

 

A herança do sebastianismo pesa sobre os nossos ombros, a espera de uma solução milagrosa mantém-se. Primeiro, eram os cortes nas gorduras do estado, agora é o consenso.

 

Este não é um apelo à resignação. Acontece que o primeiro passo pela resolução de qualquer desafio é reconhecer os limites da nossa acção e perceber que a realidade é complexa e interligada, e que muitos dos problemas nem sequer estão dependentes da nossa vontade.

 

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Segunda-feira, 15.07.13

Portugal, um país de reformas

Em Portugal, todos os governos gostam de usar a linha propagandista: "somos um governo reformista". Não é, por isso, de estranhar que as duas principais figuras do Estado - Presidente da República e Presidente da Assembleia da República - sejam reformados.

 

Acontece que apesar de todo este ímpeto, a crise chegou a Portugal. O problema, ao que parece, era falta de reformas. Já tinham sido gastas todas as reformas nacionais, por isso foram importadas reformas do estrangeiro. Estes técnicos preparadíssimos iam colocar os mandriões dos portugueses na linha.

 

Afinal, os resultados não foram os previstos. Os técnicos eram bons, disso não há qualquer dúvida, porém não eram conhecedores da realidade portuguesa, e os portugueses, enfim já se sabem como são. 

 

E agora? Bom, são precisas mais reformas e estas não podem parar, pelo que a segunda melhor opção  -  a primeira seria um ditador - passa por celebrar um acordo de salvação nacional que mantenham em curso as necessárias reformas.

 

Enquanto o país continua a ser um gigantesco estaleiro, os jovens emigram, os nascimentos são menores que as mortes, e verifica-se um continuado envelhecimento demográfico.

 

Rumo a um país só de reformas.

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Sexta-feira, 12.07.13

Maturidade e Credibilidade

"I am now 33 years old, and it feels like much time has passed and is passing faster and faster every day. Day to day I have to make all sorts of choices about what is good and important and fun, and then I have to live with the forfeiture of all other options those choices foreclose. And I'm starting to see how as time gains momentum my choices will narrow and their foreclosures multiply exponetially until I arrive at some point on some branch of all life's sumptuous branching complexity at which I am finally locked in and stuck on one path and time speeds me through stages of stasis and atrophy and decay until I go down for the third time, all struggle for naught, drowned by time. It is dreadful. But since it's my own choices that'll lock me in, it seems unavoidable - if I want to be any kind of grownup, I have to make choices and regret foreclosures and try to live with them."

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Depois da EDP, o sistema político

O impulso de Cavaco Silva para que os partidos cheguem a um "entendimento" é mais um passo na consolidação da anti-política. Por isso gostaria de deixar um excerto de um texto meu de Novembro de 2011, que julgo que mantém toda a sua actualidade:

 

"No dia 9 de Novembro de 1989, o Muro de Berlim começou a ser derrubado, marcando o início do fim da Guerra Fria. Um fim surpreendente para um conflito que durara quatro décadas. Ninguém imaginava que um dos blocos implodiria por si, muitos julgavam que iria assistir-se a uma simbiose entre os dois modelos de desenvolvimento, uma síntese hegeliana.

 

O instinto estava correcto mas não ocorreu com a antí-tese imaginada. Em vez de existir uma sintese com o sistema soviético estamos a assistir uma síntese com o sistema chinês.

 

A partir do 1980, os governantes chineses foram sucessivamente substituidos por tecnocratas, fieis ao partido único, mas com um saber técnico e profissional que faltava aos "revolucionários originários". Esta alteração trouxe importantes implicações ao sistema político chinês (o original pode ser encontrado aqui):

 

- Em primeiro lugar, os actuais líderes chineses tendem a pensar que a política é como um projecto de engenhariacada problema tem uma solução, e quando a solução é encontrada, o caminho para a verdade deve ser claramente seguido, não sendo sujeito a quaisquer vozes dissidentes;

 

- Em segundo lugar, a política, ao invés de um processo aberto em que as pessoas devem participarse torna uma questão de engenharia social, com limites claros e soluções certasEm algum grau, a elite na China têm praticado uma política de anti-política, isto é, tentando acabar com a deliberação, conflito e participação;

 

(...)

 

Ora, ao olhar para o que se assiste diariamente na Europa e no mundo ocidental verifica-se que estamos a caminhar neste sentido. Um futuro com menos direitos, mais horas de trabalho e pior remunerado, o esvaziamento do discurso político e da legitimação pelo voto, por um poder tecnocrata alheado das aspirações dos eleitores."

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Terça-feira, 09.07.13

No alarms and no surprises II

You look so tired and unhappy
Bring down the government
They don't, they don't speak for us



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Segunda-feira, 08.07.13

No alarms and no surprises

"Nobody panics when things go according to plan, even if the plans are horrifying.", Joker.

 

Lembrei-me desta frase quando, de repente, instalou-se o pânico com a eventual queda do Governo. Sim, o défice no primeiro trimestre do ano atingiu os 10,6%; a dívida pública agrava-se; o desemprego aumenta; a recessão não tem fim à vista. Mas, para muitos, o pior que podia acontecer era a queda do Governo.

 

Algo que não se poderá dizer é que esta política não resulta. Ela tem resultados. Algumas vozes até afirmam que estes sempre foram os realmente pretendidos: redução dos salários, aumento das desigualdades sociais e do fosso entre ricos e pobres; eliminação do estado social.

 

Pretendidos ou não, a verdade é que estes são esperados. Existe uma espécie de consenso nacional da inevitabilidade do empobrecimento. Sem surpresas verifica-se que entre um comprovado mau plano e um salto no desconhecido, a escolha recaí quase sempre na primeira opção.

 

 

 

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Quinta-feira, 04.07.13

Paulo Portas numa frase

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Terça-feira, 02.07.13

When its not always raining there will be days like this

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Quarta-feira, 26.06.13

Ninguém explica

A austeridade já foi desmontada teórica e empiricamente. Os seus defensores, porém, continuam a refugiar-se na ausência de alternativas; esquecem-se, parafraseando DFW, que a etiologia e o diagnóstico são os pressupostos da cura e que apenas com a revelação do erro é que se pode originar uma resposta.

 

Por outras palavras, a recusa é uma escolha.

 

E, é por isso que um dos desafios da próxima geração será compreender como foi possível insistir na austeridade se era matéria assente que esta não só não funciona como ainda consegue ser contraproducente.

 

Será inércia? Incompetência? Falta de imaginação?

 

Boa sorte para eles.

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Sábado, 22.06.13

Jovens da JCP libertados no Porto, 2 acusados de resistência à PSP.

Sugiro na próxima greve geral pintarmos todas as paredes do Porto. Ide e espalhai a palavra.

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Quinta-feira, 20.06.13

Colete de Forças

Um dos paradoxos do nosso tempo prende-se com a disparidade entre a escolha quase ilimitada - o que acaba, até, por provocar ansiedade - que existe enquanto consumidores (adquirir um produto simples como o leite tornou-se numa esgotante epopeia entre pacotes de leite gordo, sem lactose, com cálcio, magro, UHT, dispersas por um sem número de marcas diferentes) e a ausência de escolhas enquanto cidadãos.

 

Ora, essa ausência de alternativas resulta de uma visão paternalista e um complexo de superioridade que as elites políticas possuem sobre a generalidade dos cidadãos, que revela-se na explicação pueril que determinada medida foi recusada pela opinião pública porquanto esta havia sido mal explicada.

 

O receio do que os cidadãos pudessem decidir - o que no fundo é a base da democracia - encontrou o seu apogeu na arquitectura da União Europeia, que sempre teve o cuidado de criar os seus organismos imunes aos interesses "perigosos" dos povos, ficando isentos de qualquer responsabilização democrática.

 

Tal arquitectura provoca um novo paradoxo: um colete de forças institucional que nos impede de acabar com esta loucura.

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Terça-feira, 18.06.13

Hellas

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Segunda-feira, 17.06.13

O estrangeiro

Questionado sobre o esquema que a Google montou para poupar milhares de milhões de euros em impostos, EricSchmidt afirmou que "isso chama-se capitalismo". Sendo um esquema legal é visto pela generalidade das pessoas com uma certa bonomia. Com efeito, os seus defensores dizem candidamente que no fundo as empresas apenas estão a defender os seus interesses, o que é perfeitamente legítimo.

 

Ora, o que não é compreensível é que os trabalhadores se sintam envergonhados por defenderem os seus interesses. Nem faz sentido o argumento de que certos trabalhadores já têm muitos privilégios; ou ainda, de que esses têm muito sorte, outros trabalhadores, coitados, não tem esses direitos nem podem fazer greve? E então a Google já não tem lucros elevadíssimos? E a Odesigualdade existente entre a Google e as outras empresas que não possuem os meios para criar os esquemas necessários para pagarem menos impostos?

 

A sociedade vive do confronto de interesses antagónicos e a sua evolução depende da forma como esse confronto se resolve. E, esse resultado não será certo ou errado, apenas será. 

publicado por CRG às 16:41 | link do post | comentar
Sexta-feira, 14.06.13

Oh tempos, oh costumes!

Até quando, ó Troika, ó Gaspar, ó Passos Coelho, abusarão da nossa paciência? Por quanto tempo ainda hão-de zombar de nós essa vossa loucura? A que extremos se há-de precipitar a vossa audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda nocturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem a razão, nem os resultados, nada disto conseguiu perturbar-vos? Não sentem que os vossos planos estão à vista de todos? 

 

Mas agora é a toda a República que dirigem abertamente o vosso ataque; são os templos dos deuses imortais, são as casas da cidade, é a vida de todos os cidadãos, é a Europa inteira, é tudo isto que arrastam para a ruína e a devastação.

 

Mas de que servem as minhas palavras? A vós, como pode alguma coisa fazer-vos dobrar? Como poderão algum dia serem corrigidos?

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publicado por CRG às 15:54 | link do post | comentar
Terça-feira, 11.06.13

There there

Parafraseando Joseph Heller:

- O Governo dos EUA quer-me apanhar.

- Não quer nada.

- Então por que é que estão a interceptar todas as minhas comunicações?

- Eles estão a interceptar as comunicações de toda a gente.

- E que diferença isso faz?

 

Tal como a personagem homónima do Catch-22, Snowden desvendou-nos um segredo. No fundo, ambos os Snowden "spilled their guts", um literalmente e outro, para já, - e esperemos que assim se mantenha - apenas metaforicamente. 

 

Para os mais cínicos não foi tanto desvendar como confirmar a suspeita que sempre tiveram: o governo dos EUA vigia em tempo real todas as comunicações online do planeta.  

 

E agora, qual será a nossa atitude? Seremos, tal como Yossarian, impotentes e repetir frases inócuas "there there"? 

publicado por CRG às 15:15 | link do post | comentar
Terça-feira, 04.06.13

W.A.S.T.E.

 

Durante cerca de cinco séculos, os serviços postais na Europa foram controlados pela família Thurn e Taxis, até serem absorvidos para os correios do Império Alemão em 1871.

 

Não é uma coincidência que o correio privado tivesse iniciado o seu declínio com o advento do Estado-Nação e encontrado o seu fim às mãos do primeiro estado social. Um serviço postal público é garante não só da soberania nacional como da liberdade de comunicação, com direito à privacidade e ao anonimato.

 

Ora, a privatização dos CTT acaba por ser mais um exemplo do fim da soberania nacional e do estado social em curso. 

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publicado por CRG às 11:31 | link do post | comentar
Sexta-feira, 31.05.13

Harder than you think

publicado por CRG às 13:24 | link do post | comentar

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