Memória

Face a tal tipo de provocação, terei de começar de uma forma quase insultuosa. Primeiro não acho que a fotografia escolhida seja representativa do Porto, nem na altura nem agora, apesar de, confesso, ainda não conhecer bem a nova ‘ágora’ da cidade.

Para mim a memória do Porto será sempre a incontornável ribeira, o rio e as pontes. Não há nada que me acalme mais o espírito inquieto do que aquela visão. A certeza granítica da cidade, avessa a mudanças, aquilo que, espero, sejam as mesmas ruas, as minhas ruas.

Muitas vezes me incomodo com os espaços desertos, desabitados e abandonados do Porto, tal qual disco riscado, estou sempre a falar das inúmeras potencialidades da Baixa do Porto e do centro vibrante em que todo aquele património se pode tornar. Imagino aquelas escadas e escadinhas cheias de gente com destino certo e seguro, quer seja para casa ou um qualquer novo bar, galeria, loja…

E, ao mesmo tempo, receio esse mesmo movimento. Por vezes acredito que, como portuense, como portuguesa, me agrada o incompleto, o meio vazio e não o meio cheio e que, face às recentes expectativas e propostas de turismo para a cidade, recuo nas minhas certezas de desenvolvimento. Acho que não se pode negar o imenso potencial do Porto enquanto destino turístico, mais do que da cidade, falo de região, da macro-região que é o Douro ou o Norte. As vinhas, os castelos, as paisagens, as gentes e a cultura, imagino que uma boa política de posicionamento de mercado podia fazer maravilhas, não negando o grande empurrão que o aeroporto e as low-cost podem dar ou já deram.

Mas afirmar que o Porto pode competir no mesmo plano que cidades como Barcelona, Praga ou Budapeste, como se reiterou numa notícia do ‘Público’ no passado Domingo parece-me ridículo (que não é bem uma opinião, nem tão pouco uma postura – é mais como um 'bitaite'). Não tenciono falar com propriedade, que não tenho, mas a verdade é que, bem ou mal, conheço as três cidades, quatro cidades em questão, duas bem melhor do que as outras e nem sequer entendo como Barcelona, Budapeste e Praga podem estar inseridas na mesma categoria.

Mas o Porto ao nível de Barcelona?! Será que estão a querer que o Porto perca o seu carácter? Eu gosto de pensar que Barcelona já foi uma uma grande cidade e que a atmosfera que aqui se vivia inspirou esta corrente de turismo contínua e crescente da  última década. Mas querer que o Porto seja assim não me parece solução para nada. E defendo que, por muito que se possa contestar o turismo de massas, não se pode negar a abertura de espaços e mentalidades que permitiu, particularmente na Europa. 

Mas há limites e temo que Barcelona tenha encontrado o seu, o turismo de pouca qualidade em que o custo é o primeiro e único factor de a ser considerado vingou nesta metrópole. No fundo o que quero dizer é que prefiro algumas ruas do Porto desertas a este amontoado amorfo de gente.

Sim, não nos distinguimos por uma visão excepcionalmente liberal do quotidiano. Sim, a nossa oferta cultural não nos coloca nos principais palcos europeus e as nossas praias não primam pelas temperatures elevadas e brisas amenas, mas há algo. Há algo mais do que tudo isto e que não sei bem expicar, talvez seja por ser do Porto. É impossível ser imune a essa aura, não sei se será o tempo, como diz o CRG, eu acredito mais nas gentes ou quem sabe uma mistura destes dois factores e de muitos outros que agora me escapam.

E mais do uma crise do Porto, acredito numa crise das gentes do Porto, que se esqueceram da cidade e de si mesmos, do seu potencial conjunto, e que assistem, contidos, à alteração da morfolgia e pulsar da cidade.

Praga não está no mesmo campeonato e é muito mais do que uma paisagem bonita, está numa encruzilhada entre o novo Ocidente e o antigo Leste. Sobreviveu à Guerra e por isso desperta curiosidade. Ver a ‘Ponte Carlos’ e o castelo num qualquer entardecer de Inverno fez-me duvidar. Achava que tinha encontrado uma verdadeira competição para a minha memória, talvez…

No entanto, que gosto de pensar que alguém ao ver o ‘velho casario’ duvide das suas prórias memórias e certezas.
publicado por ainquietudedesofia às 20:36 | link do post | comentar