Amaro

Em Itália, no fim das refeições, é costume beber amaro: um digestivo de travo amargo, que visa aumentar o prazer da refeição. Esta ideia da necessidade de amargura como forma de realçar e potenciar a felicidade tem-se perdido nos últimos tempos.

 

A tristeza é vista como uma doença; um inimigo que deve ser combatido para que apenas a felicidade possa reinar. É imperioso que sejam descobertos os seus sintomas para que sejam eliminados o quanto antes. A tristeza melancólica - aquela que apenas e simplesmente existe, sem que haja algo de palpável e explicável - é uma aberração, sofrida com vergonha. E como tal, é escondida, dissimulada no véu do sorriso, ou "curada" com recurso a fármacos. 

 

Faz-me recordar um conto do Tchekhov, As groselheiras:

 

"Não vemos e não ouvimos os que sofrem, e tudo o que há de horrível na vida acontece em algum lugar nos bastidores...Tudo está calmo e tranquilo, só as estatísticas mudas protestam: tantas pessoas enlouqueceram, tantos litros de vodka foram bebidos, tantas crianças morreram de desnutrição. E essa ordem de coisas é obviamente necessária; o homem feliz evidentemente só se sente bem porque os infelizes carregam o seu fardo em silêncio, e sem esse silêncio a felicidade seria impossível."

 

Discordo. O Homem apenas poderá se sentir feliz se existir algum amaro.

 

diz-me o porquê dessa canção tão triste
me fazer sentir tão bem

 

 

publicado por CRG às 12:40 | link do post | comentar