Identidade (parte 1)

 

A característica mais importante de qualquer clube é a sua identidade. De tal forma que o maior receio actual dos sportinguistas não é ficarem no quarto lugar, ou pior, a mais de trinta pontos do campeão mas a belenização do clube.

 

A identidade, mais do que as vitórias, é o que permite a angariação de adeptos. As vitórias são um instrumento para obtenção de uma identidade ganhadora, mas como só ganha um de cada vez os clubes não podem depender apenas dessa característica. Aliás se fosse assim, não haveria adeptos de outros clubes que não dos três grandes ou por exemplo os LA Clippers não teriam qualquer adepto. 

 

A identidade é algo que demora anos, décadas a criar mas que pode ser rapidamente destruída com algumas condutas menos ajuizadas. Ora, o que se assistiu no clássico do último domingo foi a perca da identidade de uma grande instituição que é o Benfica. 

 

O Benfica, durante largos anos, criou a sua identidade: um clube popular, em contraponto com o elitismo do Sporting, que apesar de originário de um país pequeno, periférico, fechado sobre si mesmo, dava cartas na Europa; que conseguia bater-se de igual para igual com os colossos europeus como o Real Madrid ou Man Utd, conduzindo a que, apesar das rivalidades, tivesse o enorme respeito dos adversários e criasse até divisões entre os adeptos dos próprios clubes que o defrontavam (há não poucos anos, no antigo Estádio 1ª de Maio, era usual os adeptos do Sporting de Braga apoiarem ambos os clubes).

 

A certa altura, com as vitórias a escassearam, foi necessário a criação de uma narrativa, apoiada por certos órgãos de comunicação social, em virtude de necessidades comerciais, de forma a desresponsabilizar os seus dirigentes. Essa narrativa afirma que a vitória do clube, o mais maior clube do mundo, era o estado normal, um direito adquirido e que apenas por razões ocultas isso não sucederia.

 

Se por um lado, essa narrativa impõe um exacerbamento das vitórias*, traduzindo-se, ao mesmo tempo, nos jogadores uma certa sobranceria, uma ideia de facilidade, a questão no domingo não era saber se havia vitória mas por quantos (Coentrão afirmou que seriam por 2 ou 3). 

 

Por outro lado, o Benfica transformou-se num clube aristocrata, desligado da realidade, que prefere apagar as luzes a enfrentar a derrota, focar a sua atenção nas contratações futuras a admitir erros. Com essa atitude as derrotas tornam-se num acontecimento vazio, porque daí não retiram lições para o futuro: "tudo está bem, não é necessário correr mais ou jogar mais, a culpa não foi nossa, nem há mérito do adversário, a culpa foi das arbitragens no início do campeonato".

 

Acresce que se esta mentalidade não for rapidamente corrigida, e subsistir a ideia de que a vitória é normal, perde-se a sede de sucesso, a vontade de ganhar e, sobretudo, a ideia de superação, que é o factor talvez mais importante num jogo de futebol, porque o "normal" pode ganhar jogos mas raramente ganham competições.

 

 

 

* A equipa maravilha, apenas sagrou-se campeão na última jornada, terminou o campeonato anterior com 76 pontos, enquanto que o FC Porto sagrou-se campeão à 25º jornada (faltam 5 jornadas, 15 pontos em discussão) com 71 pontos.

publicado por CRG às 18:13 | link do post | comentar