Despolitização

Ao ouvir o debate na AR sobre o orçamento do próximo ano verifiquei que Portugal, ou pelo menos as suas classes dirigentes, é profundamente católico. Durante toda a discussão foi veiculada a ideia que após os exageros é altura da penitência, um acto de contrição necessário e essencial para serem acalmados os mercados.

 

E não é que os mercados se borrifaram para a penitência, quem diria!

 

Acreditava, ingenuamente é certo, que a política visava a modificação da sociedade, de preferência para melhor. A abolição da escravatura, a democracia, a segurança social, o serviço nacional de saúde são todas alterações operadas pela política. Neste momento, acontece o contrário: a realidade é vista como imutável e a política transformou-se em gestão corrente.

 

Por um lado, em virtude da adesão à UE e ao Euro os parlamentos nacionais perderam inúmeros poderes e instrumentos que lhe permitiam actuar. Na verdade, devido às diversas assimetrias da zona euro a luta pelo défice terá sempre que passar por alterações à escala europeia: é inconcebível que os Bancos sejam financiados a 1% do BCE para concederem empréstimos aos países a 6,6%.

 

Por outro lado, assiste-se a um progressivo esvaziamento da política nas decisões políticas, tendo sido substituídas por tecnocratas. No entanto, o que as mais recentes descobertas científicas nos ensinaram é que uma qualquer decisão é muito menos racional do que se julgava, é sobretudo emotiva e quase imediata. E nessa decisão concorrem factores culturais, ideológicos, etc. A razão é utilizada para dar conforto e enquadramento à decisão, da mesma forma que procuramos as opiniões de amigos para corroborarem as nossas escolhas. Nesse sentido, subconscientemente dá-se relevo a factos que apoiam a nossa posição e, por sua vez, relativam-se factos contrários.

 

Pese embora estes avanços científicos, continua-se a acreditar que existe uma verdade, uma decisão perfeita, um caminho a seguir. Se fosse assim haveria um manual de decisões políticas e não eram necessárias eleições.

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publicado por CRG às 17:34 | link do post | comentar