República

 

A Comissão Nacional para as comemorações do centenário da República teve uma tarefa complicada: justificar a comemoração, e suas despesas, numa altura em que as instituições e economia estão em crise.

 

 

De facto, quando vemos os nossos lideres políticos a comportarem-se como os miúdos d' "O Senhor das Moscas" a tentarem apaziguar a Besta dos mercados com medidas de austeridade, torna-se difícil ficar entusiasmado com a República.

 

Faltou, porém, nestas comemorações discutir a ideia de coisa pública e, sobretudo, a ideia de sociedade.

 

A instauração da República francesa é o marco histórico que finaliza o Antigo Regime, que destruiu a ideia de uma estratificação estática da sociedade.

O individuo nasceu. As pessoas deixaram de serem vistas pelo prisma da classe (povo, nobreza, clero) a que pertencem. Iniciou-se o longo caminho da igualdade, da igualdade perante a lei e perante outros.

 

No entanto, este parto não se fez sem dores: as angústias individuais - o conflito entre a multiplicidade infinita de possibilidades e os limites de cada um -, a necessidade de pertença, a anomia. Desde essa altura que se tem assistido a um exacerbamento do culto do indivíduo, romperam-se os laços comunitários e de solidariedade. O resultado é uma sociedade mais egoísta.

 

E é precisamente em tempos de crise que o egoísmo é mais extremo e o "outro" é o alvo primordial. Sucede que na sociedade actual a inexistência destes laços todos são os "outros". Neste paradigma a União Europeia é posta em causa, a unidade de alguns países também o é (Bélgica). Haverá futuro numa organização baseada na solidariedade e união de povos? Enquanto isso a sombra de extrema-direita paira sobre toda a Europa alcançando um cada vez maior protagonismo.

 

Por esta banda discute-se as vantagens do princípio utilizador-pagador. De acordo com este princípio seriam os marinheiros a pagar o preço dos submarinos. Ultrapassada esta hipérbole, dá gozo ouvir os defensores deste princípio contar que não consegue entender como é que ele, felizmente tendo posses, paga uma ninharia pelo exemplar serviço hospitalar que usufruiu. Aqui vai uma ideia maluca: façam uma doação! A sério é possível e aposto que o Hospital agradece.

publicado por CRG às 11:37 | link do post | comentar