Réquiem para um Cio

 Letra L. O seu carácter define-se na falta da letra L: busca de individualidade entre aquela massa amorfa que saía da linha de montagem. Não. É melhor começar pelo fim. Após 10 anos de serviço leal irei trocar, dentro de seis meses, o meu C(l)io por um carro mais recente, mais seguro, mais confortável, mais eficiente. Tudo motivos racionais, sem dúvida. Oh, será possível não sentir alguma melancolia? Neste período passei mais tempo na sua presença do que com outra coisa qualquer. Não é apenas um conjunto de chapa, borracha e plástico. É um receptáculo de memórias. Um confidente de frustrações, desabafos e suspiros. Assistiu a conversas, discussões, bebedeiras e gargalhadas. Se pudesse teria, de certo, corado com algumas manobras mais imprudentes, que com o seu precioso auxilio saí sempre ileso. Apesar de uma forte personalidade nunca me deixou apeado, precisando por vezes, é certo, de um ligeiro empurrão. No entanto, quem é que não precisa de um de vez em quando? “É apenas um carro”, dirão cinicamente algumas pessoas, mas eu sei que é muito mais do que isso. E pensar que vai ser reduzido a um cubo de sucata...

música: K. 626 - Mozart
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publicado por CRG às 18:27 | link do post | comentar