Só neste país é que se diz só neste país

Há uma cena no filme "Os Dias da Rádio", em que o alter-ego do Woody Allen é sovado repetidamente pelo pai, mãe e rabi, sendo que, cada um deles, arroga-se a titularidade exclusiva de tal acto.

 

O português, que deve ser o povo que mais "bate" no próprio país: não respeita os espaços públicos; critica o que aqui se faz, sempre terminando com um "só neste país"; mas, como as personagens do filme, indigna-se quando um não-português faz o mesmo.

 

O problema é que Portugal deixou, há muito tempo, de ser um país, de trabalhar para um objectivo comum, um desígnio nacional. Vivemos para as aparências e para o Guiness: desde a maior ponte da Europa ao maior bolo-rei do mundo (o que explica os inúmeros tabus do Presidente Cavaco); obcecados pelo o que é dito sobre nós no estrangeiro.

 

E, quando essa aparência, o único orgulho que nos resta, é beliscada, é o aí jesus* com e-mails de indignação e petições a proibir a entrada no país destes "hereges".

 

Os "patriotas" não sabem, ou não querem perceber, que uma piada normalmente vai buscar estereótipos, exageros: os católicos não têm milhares de filhos, nem as mulheres dão ao luz enquanto trabalham, mas foram assim retratados pelos Monty Phython.

 

Se querem colocar petições e mostrar a vossa profunda indignação: olhem para o estado do nosso património cultural, os monumentos abandonados sem qualquer preservação; olhem para os números da pobreza; olhem para a desertificação que conduzirá a um novo sahara. 

 

Com tanto motivo de indignação deixem-se de novelas, sim?

 

 

* Não confundir com o "aí Jesus" que vai existir quando o FCP se sagrar penta-campeão.

música: Portugal, Portugal - Jorge Palma
publicado por CRG às 18:38 | link do post | comentar