Pale King

Na semana passada, comecei a leitura do romance incompleto e editado postumamente de David Foster Wallace e, como sempre acontece, nasceu em mim, perante a genialidade da sua prosa, um Salieri*: aquele momento em que as pautas de Mozart escorregam pelas suas mãos e toma a consciência de que nunca será capaz de produzir algo tão bom - um sentimento ainda mais forte do que o habitual por se tratar de um livro inacabado e como tal objecto de pelo menos mais uma revisão do autor e eventuais melhoramentos.

 

Apesar de não ter qualquer desejo, nem apetência ou talento, para algum dia escrever um romance (e deus sabe como as livrarias estão já cheias de obras de qualidade duvidosa, como magistralmente se encontra descrito no malomil) não me consigo abstrair como autor de um simples blog da diferença abissal existente; o que me deixou a um pequeno passo de seguir as pisadas de Gogol e apagar o blog e desistir de escrever o quer que seja, no meu caso, é certo, sem provocar clamores de maior.

 

No entanto, não deixa de ser irónico que recorra à escrita e a este blog semi-abandonado e sem visitantes para transmitir este sentimento de incapacidade, de ter acabado de ser confrontado com a minha mediocridade - o que torna tudo ainda mais doloroso e estranho, mas reflecte também a necessidade intrínseca de comunicar.

 

Este artigo é também, e não vale a pena esconder, uma tentativa mal amanhada, e condenada ao insucesso, de copiar o estilo do DFW, por isso o melhor é deixarem a internet e comecem a ler o "Pale King".

 

* Na versão cinematográfica de Milos Forman, uma vez que na realidade este era um compositor de grande qualidade.

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publicado por CRG às 18:11 | link do post | comentar | ver comentários (2)