Manter a morte longe

 

Até à década de 60 do século passado, o indivíduo era invisível, na certeira expressão de Ellison; a sua identidade era abafada pelo manto da sua classe social, origem étnica ou nacionalidade. 

 

A partir desse momento, existiu uma revolta individualista: a ânsia de ser diferente, de marcar diferença, de ser visível. E, como todas as revoltas, chegou-se ao extremo: os "novos" desportos presentes nos X-Games são individuais; e até o próprio marketing - num golpe de asa irónico - serve-se do desejo de ser único e especial para vender mercadoria produzida em massa. 

 

Actualmente, o individualismo excessivo não nos tornou mais visíveis, apenas mais centrados nos nossos problemas, reduziu-se a empatia e afastou-se a ideia de pertença. 


Sim, é verdade que "todos morrem sozinhos". A finitude é uma característica intrínseca de cada indivíduo. E, como escreveu DeLillo "to become a crowd is to keep out death". Por esse motivo há quem esteja disposto a dar a sua vida por uma causa, por uma instituição, pela família ou por um país, sabendo que ao contribuir para o bem comum atinge a imortalidade, afasta a morte, a sua presença perpetua-se no tempo.


Deste modo, uma sociedade individualista é uma sociedade condenada por que não conseguirá "manter a morte longe". 

publicado por CRG às 13:08 | link do post | comentar