Açores

"21º célsius", comunicou o piloto da SATA num tom estranhamente jocoso, que apenas entendi no exacto momento que passei a porta de saída do Aeroporto João Paulo II (São Miguel) e levei com um estalo de bafo quente, tudo similar à humidade que havia sentido em Havana. As semelhanças com as caraíbas terminam aqui. Eu estava em Portugal. As ruas, as vielas, as montras, os prédios possuem aquele ambiente distintamente português. No entanto, os "nativos" falam de Portugal como no "continente" se fala da UE: uma pertença impessoal.

 

Esta indefinição foi ubíqua na "experiência Açores": um estado de tempo tão instável que deve enlouquecer o meteorologista mais zen; um nome originário de "Azul" para uma terra verde; um arquipélago no meio do Oceano Atlântico que privilegia a carne (e que carne magnífica) ao peixe e que prefere as lagoas ao oceano.

 

No fundo, os Açores é como o muro que divide a lagoa azul da verde nas Sete Cidades: não se compromete com nada e reserva-se o direito a ser singular. A ausência de crise de identidade revela-se na sua obsessão em colocar miradouros em tudo o que é sítio como a dizer: não tirem conclusões, esqueçam tudo, apenas olhem para mim e vejam como sou bela. E é.

 

publicado por CRG às 13:18 | link do post | comentar