Truísmos

O uso excessivo de ironia fez com que esta, em vez de servir como forma de desmascarar as hipocrisias da realidade, se transformasse num instrumento de defesa sofisticado destinada a justificar compromissos, a desculpabilizar a realidade, permitindo que os seus utilizadores planassem sobre esta. No fundo passou a ser um artificio utilizado pelo prisioneiro que ficou a adorar a sua cela.

 

A tirania da ironia revela-se não só na realpolitik mas na submissão resignada do sujeito ao mundo que o rodeia: a aceitação consciente do estado das coisas actuais e futuras e correspondente aproveitamento sob o manto de "todos assim o fazem".

 

A discordância dessa imutabilidade, a esperança numa verdadeira mudança é visto com sobranceria: um desejo simplista e anacrónico, defendido por demagógicos e populistas. 

 

Intelectualizou-se tanto que os truísmos, as verdades evidentes por si mesmas, e todos os resquícios de moralidade são considerados datados, uma ingenuidade de outros tempos, mais simples, inaplicáveis aos tempos complexos de hoje. Um tempo de difusão de responsabilidades da qual o sujeito abdica em nome da liberdade para nada fazer.

publicado por CRG às 15:24 | link do post | comentar