Cigarra e Formiga

Há uns tempos o Ministro da Administração Interna aludiu à fábula da Cigarra e da Formiga, retirando a usual moral da história: apenas com trabalho árduo estaremos protegidos no futuro.

 

Sucede que na fábula que eu conheço a Formiga, por pena, acaba por ajudar a Cigarra, dando-lhe alojamento e comida. A Cigarra não perdeu uma pata em virtude do frio extremo ou viu as suas cordas vocais danificadas, em suma as coisas acabaram até por correr bem para ela. Desta forma, existe uma incongruência inultrapassável entre a fábula e a moral*.

 

Por essa razão sempre extraí desta fábula uma moral diferente: uma sociedade justa não excluí os mais desfavorecidos, mesmo que estes tenham cometido erros; nenhum erro pode colocar em causa a dignidade da pessoa humana. Acresce que os humanos, ao contrário do que algumas teorias económicas defendem, não são seres totalmente racionais, nem as suas acções pressupõem uma atitude consciente.

 

Num tempo cada vez mais em crise seria importante mais governantes mencionarem esta fábula mas com a moral actualizada.

 

Adenda:Conceição Bernardes é a directora do agrupamento Dra. Laura Ayres e decidiu proibir as crianças filhas de pais que não conseguiram pagar as refeições de comerem no refeitório da escola que dirige. Os requintes de malvadez chegaram ao ponto de ela não permitir que uma funcionária do refeitório pagasse a refeição a uma das crianças, tendo esta sido obrigada sentar-se ao lado dos colegas sem comer. (fonte)

 

* No original do Esopo a Formiga não ajuda a Cigarra, pelo que aqui a moral não sofre de qualquer contradição.

publicado por CRG às 12:23 | link do post | comentar