Gostava do Eusébio. Durante muitos anos foi o "abono de família" do SLB dando-lhe golos, títulos, cachets. E, mesmo assim, gostava do Eusébio, não era só respeito, gostava mesmo. Aquelas arrancadas, remates potentes feitos com graciosidade e alegria de um sobre-dotado; o seu fair-play em campo, as lagrimas após a derrota no mundial de 1966 - tudo isto faziam-me gostar do Eusébio, transcendendo qualquer fervor clubístico.
Não alinho no discurso moralista dos "role-models", nunca procurei perfeição e sobreponho as qualidades artísticas a qualquer defeito de carácter (dentro dos limites mínimos "olá Albert Speer"). Por isso nunca liguei muito a algumas frases menos felizes do Eusébio: acusações de racismo ao seu antigo clube de Moçambique ou algumas entrevistas fabricadas no jornal "A Bola".
E agora o Pantera Negra faz 70 anos e deixei de gostar dele, perdi o grande respeito que tinha. Isto não é digno de um dos melhores jogadores do mundo de sempre. Estou triste e zangado...
Kodak apresentou-se à insolvência. Puxo pela memória e mesmo assim não me consigo recordar a última vez que mexi num rolo de fotografia, que abri a tampa de uma máquina fotográfica, retirei o rolo para o colocar no pequeno tubo preto de plástico pronto para a revelação.
Não foi apenas mais um pedaço da infância que se perdeu com esta insolvência, mais importante do que isso, foi uma outra forma de ver, de nos relacionarmos com a fotografia.
Nos tempos do rolo a fotografia era misteriosa (confiava-se que tinha saído bem), especial, singular, pensava-se duas vezes antes de tirar uma, estava reservada para aqueles momentos, momentos Kodak. Actualmente, a fotografia é uma comodidade sem valor, banal, corrente, descartável.
E era sobretudo especial porque envelhecia tal como nós. O papel repercutia o decurso do tempo, tornava-se antigo, gasto, perdia alguma cor: não só nos trazia para o passado com as recordações impressas como era uma prova física dos anos que passaram.
Sócrates diz que não governa com a troika. Sócrates assina o pacto com a troika.
Seguro faz uma abstenção violenta.
João Proença faz discurso violento contra a troika. João Proença é dirigente do PS, partido que assinou a troika.
UGT participa em greve geral, UGT assina a concertação social. Francisco Assis diz que a UGT prestou um grande serviço ao país.
Daniel Bessa, ex-ministro do Guterres, elogia a persistência do Ministério da Economia e a coragem de João Proença.
Na lei da procriação medicamente assistida, Carlos Zorrinho e a ex-ministra da Igualdade Maria de Belém querem manter a restrição a casais heterossexuais, casados ou em união de facto.
Este PS é oposição ao PSD em quê? Digam lá quantas vezes adormecerá o Passos Coelho com dores de cabeça por causa do PS? Vergonhoso.

"Love", em ténis, corresponde ao zero no marcador. Perante esta concepção de amor imbuída neste desporto não surpreende pois que Serena Williams tenha sido a terceira grande campeã, depois de Agassi e Steffi Graff, a admitir que não gosta de ténis.
É até natural que num desporto de grande exigência física e mental como este - longas horas de treino, uma época que abrange quase um ano civil, competição praticamente diária, viagens constantes, o seu cariz individual - exista no decorrer dos anos um desencantamento.
No entanto, ao contrário do que sucedeu com Borg, aqueles não se cansaram do jogo, simplesmente nunca gostaram; foram empurrados para a sua prática por pais controladores e obsessivos, que os obrigaram desde tenra idade a seguir um esquema de treino intensivo.
O sucesso dos filhos é evidente, será que os pais estiveram assim tão mal como à primeira vista parece?
Amy Chua, professora de direito em Yale, defende que a melhor forma dos pais protegerem os seus filhos é prepara-los para o futuro através de exercício e treino até à exaustão e depois um pouco mais além, aliado a uma atitude de escárnio, punição e vergonha quando os resultados não são perfeitos. No mundo de hoje altamente competitivo esta seria a única forma de providenciar um futuro melhor aos nossos descendentes.
Porventura o problema será precisamente o mundo que estamos a deixar aos nossos filhos, que tal como no ténis love não significa nada e o ganhar e ser número um é a medida e fim de todas as coisas.

Se como afirma Vonnegut "We are healthy only to the extent that our ideas are humane." então a Europa padece de uma doença grave.
Os sintomas são claros: a Europa foi raptada não por um boi branco, como no mito grego, mas por ganância desmedida e egoísmo.
As estruturas de uma desunião permanecem silenciosas perante o descalabro social impostas por uma austeridade supostamente redentora; e a via anti-democrática que cresce a passos largos na Hungria, onde começam a ser criados campos de trabalho forçados para os que estão desempregados há mais de 90 dias, sob supervisão policial.
And so on.
A mudança da Jerónimo Martins para a Holanda tem sido alvo de diversas criticas infelizes. Apesar de diversa propaganda em sentido contrário, as empresa têm um único fim: o lucro. Este é o seu objectivo, o resto - a ideia de defesa da comunidade, apoio à produção nacional, preocupações ambientais, o não fazer mal googleano - é puro marketing.
As empresas não se regem pelo bem da comunidade, pela saúde da economia ou finanças de determinado país, mas sim pelo seus interesses - conforme comprovou a PT ao antecipar a distribuição dos dividendos exponenciados pela actuação do Governo -, e é natural que assim seja, e quando mais rapidamente isso for admitido melhor.
No espaço público nenhum interveniente (empresas, trabalhadores, etc) usa o "véu de ignorância" de Rawls, cada um deles procura defender o seu interesse individual, que este seja privilegiado e sobreposto sobre os demais.
O estado é a única entidade que tem a função de zelar pelo interesse público, de ponderar os diferentes e legítimos interesses de cada um, optando pela opção que se apresentar mais justa, o que por vezes não significa que traga melhores resultados, não é, ou não deve ser, uma opção utilitarista.
Infelizmente, desde os anos 70 do século passado o estado, não só o português, tem desequilibrado a balança ao equiparar os interesses empresariais aos interesses do país, e como ensinou Aristóteles o desequilíbrio é sempre mau.
* Personagem de Catch 22 - Milo is a satire of the modern businessman, and beyond that is the living representation of capitalism, as he has no allegiance to any country, person or principle unless it pays him.
Depois do JN/DN terem tido a coragem de fazer a entrevista do ano à Popota, as fontes do Dois Olhares conseguiram obter a entrevista de 2012. Todos se lembram do Vitinho, mas onde é que ele está, o que fez...
Dois Olhares: Boa noite, Vitinho.
Vitinho: Boa noite.
DO: Deve ouvir muitas vezes esta frase.
V: (risos) sim, muitas vezes mesmo. Qualquer altura do dia ouço essa frase, já nem sei o que é "Bom dia" ou "Boa tarde"...
DO: Incomoda-o?
V: Agora já não, percebo que é o carinho das pessoas.
DO: Mas conte-nos como tudo começou?
V: Bem, eu tinha 10 anos e fui fazer um casting com a minha mãe para uma publicidade de comida de criança...uma coisa pequena...bem e o resto como se costuma dizer é historia.
DO: Fui um sucesso tremendo.
V: Foi enorme, nem sabia que era suposto ser transmitido todos os dias, naquele instante a minha mudou completamente. Deixei a escola, comecei a fazer espectáculos por todo o país, o meu pai acompanhava-me....andámos na estrada durante três anos sem parar, conhecemos Portugal inteiro.
DO: E depois chegou a tragédia?
V: Sim..tinha um espectáculo em Olhão, na noite anterior tinha tido um em Nazaré..naquela época ainda não havia auto-estradas por todo o lado, as viagens eram muita cansativas...o meu pai estava a conduzir o dia inteiro, eu estava a dormir no banco de trás...de repente ouvi um grande estrondo e bati no banco, perdi os sentidos, quando acordei descobri que o meu pai tinha adormecido ao volante e morrido naquele instante.
DO: Foi muito duro?
V: Claro, tínhamos ficado muito chegados...a partir daí foi muito complicado continuar a fazer espectáculos, tinha que fingir que dormia todas as noites, o que me só fazia lembrar a morte do meu pai...por isso comecei a beber para tentar esquecer e continuar com os espectáculos...
DO: Mas que idade tinha? Como conseguia arranjar o álcool?
V: Hum..14 anos...Oh, era muito fácil..naquela altura era o rei, não pagava nada, sempre que ia pagar as pessoas diziam-me "Boa noite, Vitinho" e lá ia eu...
DO: E os espectáculos sofreram com esse comportamento?
V: Claro...muitas vezes nem me aguentava de pé...aquilo era para as crianças, os pais ficavam chateados, pediam o dinheiro de volta...Aí felizmente acabaram os espectáculos...
DO: E o que fez nessa altura?
V: Fiquei à espera de outros convites...mas naquela altura não havia assim tanto trabalho para actores, não havia a produção nacional que há agora..surgiu-me a hipótese de gravar um novo anúncio..fiz mais três em três anos seguidos, tiveram um enorme sucesso mas fiquei preso naquela personagem, tinha dinheiro mas não tinha futuro...
DO: E nessa altura sofre uma nova depressão?
V: Tinha dinheiro..mas estava muito infeliz, comecei a gastar muito dinheiro em festas, as famosas festas de pijama do Vitinho..droga, álcool, mulheres..foi uma época muito complicada, muitos abusos...
DO: Mas o dinheiro acabou?
V: Sim e fiquei sozinho com os meus vícios, comecei a viver na rua, já ninguém me conhecia, bati muito fundo...
DO: E como conseguiu sair dessa situação?
V: Foi com ajuda da minha actual companheira, reconheceu-me na rua, aconchegou-me e desejou-me boa noite (risos)...ajudou-me a ficar limpo, ainda vou a reuniões todas as semanas...Arranjei emprego na Colunex do Colombo e estou a tirar o 9º ano nas Novas Oportunidades...
DO: Gostava de regressar à televisão? Qual é o seu sonho?
V: Já não, esse mundo já não é para mim...mas adorava trabalhar na secção dos quartos do IKEA.
No filme "Filadélfia" a personagem interpretada por Denzel Washington ficou famosa por utilizar a frase "expliquem-me isto como se tivesse seis anos". Ultimamente não me têm faltado assuntos que precise desta explicação básica, mas por agora ficaria satisfeito se me fosse explicado a introdução de "portagens" nas SCUTs.
A ideia assente, ou a que foi vendida à opinião pública, consistia na teoria do utilizador-pagador: os que utilizavam o serviço deveriam arcar com a sua despesa, deixando de onerar os cofres do Estado, sobretudo nesta fase de austeridade não seria justo os contribuintes financiar o uso de auto-estradas de alguns "felizardos".
Sem embargo de considerar este fundamento como demagógico porquanto não se estaria a ter uma visão alargado sobre os benefícios das SCUTs como dinamizadora da economia e descentralização do país, ficando-se por uma análise superficial de custos, na prática nem isso se resolveu.
Não só os utilizadores encontram-se a ser taxados pela utilização das ex-SCUTS (sem mencionar as consequências terríveis nas empresas inseridas naquelas zonas) como o erário público irá pagar mais com portagens do que sem elas.
De acordo com o Tribunal de Contas com a renegociação de contratos, para introduzir portagens, as estradas ficaram 58 vezes mais caras.
Vá, agora, expliquem-me isto como se tivesse seis anos...
Presépio, não acham um objecto estranho. Reparem bem nas suas caracteristicas:
- Tem um bebé todo nú, ao centro, deitado em palhas (aqui a doutrina divide-se porque a escola de Lisboa acha que está estendido, enquanto que a escola de Coimbra considera que está deitado) o que em pleno Dezembro, com o frio que está, não deve ser nada agradável.
- De um lado tem a mãe e do outro o padrasto completamente vestidos. Porque é que não emprestam um pouco de roupa ao bebé?
- A mãe não devia estar também deitada? Acabou de passar por um parto e o bebé até é grande (ou será que não está à escala?) deve estar cansada, coitada?
- O padrasto está apoiado com o pau. Será que usou o pau para bater na Maria, ora se ela estava casada com ele e teve um filho que não é de ele apenas pode significar uma coisa: ele é cornudo! O diabo também tem cornos e está vermelho de raiva. Será coincidência? Mas para além disto, o José é mesmo coitadito porque é casado e ainda nada porque a Maria é virgem!
- Temos ainda um burro e uma vaca! Ora aqui é que está a parte inteligente do presepio! As pessoas costumam explicar aos filhos que estão lá para aquecer o bebé. Ora se tivesse muito frio ele não estava nú! Na verdade, estes animais são o alter-ego da Maria e do José. Basta pensar um pouco: o que é que nós chamamos a uma mulher que está casada com um e tem um filho do outro? Uma vaca! E o que nós chamamos a alguém que acredita na história que foi o Espirito Santo que lhe engravidou a mulher e que ela continua virgem? Um burro!
PS: Porque é que há muitos presépios com neve? Alguém alguma vez viu nevar em pleno deserto!
PSD: Este artigo não quer ofender de qualquer forma as crenças das pessoas.

Passos Coelho é uma espécie de Fawlty Towers. Este considerava a gestão de hotel o trabalho perfeito se não existissem clientes, enquanto que Passos Coelho gostava de governar Portugal sem população.
Diante um muro - a ausência de alternativas - torna-se fundamental não só olhar para os lados em busca de outras opções como perceber quem construiu e como foi construído este muro.
Em 2012, as tarifas da electricidade sofrerá um aumento médio de 20% para as empresas. Numa altura que se discute a falta de competividade das empresas portuguesas, que o seu aumento seria o caminho que tiraria Portugal da actual crise, não deixa de parecer paradoxal este aumento considerável: um aumento de 1/4 do preço da electricidade, o que levará possivelmente algumas empresas a deslocalizar a sua produção para Espanha.
Sobretudo considerando que a EDP teve um lucro recorde em 2010 e, ao que tudo indica, aumentará esse lucro em 2011, o que indica uma invejável saúde financeira.
Perante este cenário não faria sentido o Governo, em vez de procurar aumentar o horário do trabalho em meia hora ou a eliminação de feriados, o que na prática não terá efeitos reais na produtividade, diligenciar no sentido de pelo menos manter, durante os próximos dois anos, o preço das tarifas de electricidade inalterável para as empresas.
Dir-me-ão que a EDP é privada. E eu digo "pois!".
Citizens of Hope & Glory Time goes by - its the "time of your life" Easy now, sit you down Chewing through your Wimpy dreams they eat without a sound digesting England by the pound
Por razões de saúde tento abster-me, o mais possível, de programas de "opinião pública", um exercício que transforma a pessoa mais tolerante num autêntico extremista.
Hoje, infelizmente, não consegui escapar ao seu encanto e lá ouvi alguns minutos de opiniões sobre as câmaras de segurança: "quem não deve não teme" e "a segurança tem que estar sempre em primeiro lugar" foram algumas pérolas proferidas num curto espaço de tempo. Um ouvinte, imbuído de um espírito patriótico, chegou mesmo ao ponto de declarar que estaria disponível para ser filmado 24 horas por dia se o Governo considerasse imprescindível - espero que o Governo não considere; já a TVI talvez sim, quem sabe.
Guardarei para um próximo artigo a discussão sobre a deriva securitária que esta medida implica e as suas consequências à liberdade, mas não seria importante antes de mais verificar se a utilização de câmaras reduz efectivamente a taxa de crime.
No Reino Unido, onde este processo encontra-se mais avançado, existe uma câmara de segurança para cada 32 habitantes, sendo que câmaras controladas pelo Estado corresponde a uma para cada 1000 habitantes. Entre 2007 e 2010 foram gastos 314 milhões de Libras em câmaras de segurança.
Apesar deste forte investimento, os estudos estão longe de corroborar a tese de que existe uma redução do crime com a instalação de câmaras, de facto segundo uma análise a 44 estudos verifica-se que estas produzem um impacto ligeiro no crime em geral, os seus melhores resultados correspondem à redução de assaltos a carros estacionados. Um outro estudo efectuado em San Francisco mostrou que as câmaras limitam-se a deslocalizar o crime.
Perante estas dúvidas legítimas quanto aos resultados da utilização de câmaras de segurança como forma de prevenção da ocorrência de crimes, seria aconselhável utilizar o respectivo orçamento para programas que comprovadamente reduzem a ocorrência de crimes, tais como esta.
"Proverbs for Paranoids, 3: If they can get you asking the wrong questions, they don’t have to worry about answers."
Thomas Pynchon - Gravity's Rainbow

A palavra não é um mero instrumento discursivo, uma ferramenta cujos respectivos sinónimos são equivalentes. Cada palavra transporta em si mesmo uma carga emocional, ideológica, em alguns casos, histórica que transcendem o seu significado literal.
Van Morrison fazia questão de destruir este poder: cantava em loop gloves loves loves gloves gloves loves gloves, triturava, mastigava como o Bexiguinha, as palavras até perderem todo o seu sentido, todo o seu poder, restando o som, a fonética, um simples mantra.
Instintivamente a nossa forma de pensar encontra-se dependente das palavras, que por sua vez depende da própria cultura que estamos inseridos, pelo que, em último grau, a cultura molda o nosso raciocínio, das situações mais simples às mais complexas.
Por exemplo, para uma tribo indígena (da América do Norte, salvo o erro) o tempo é percepcionado de forma oposta à nossa: o futuro encontra-se atrás de nós porque não o vemos, enquanto que o passado está à nossa frente porque já o vimos, o passado mais recente mais nítido e o distante cada vez mais difuso.
À primeira vista esta perspectiva soa estranha, contra-intuitiva, errada. No entanto, não está errada nem a nossa o é, são apenas variações sobre o mesmo tema, mas que tem repercussões importantes na forma como o tempo é visto, sentido, como nos relacionamos com ele...
Se na nossa cultura o tempo fosse percepcionado da mesma forma como faz aquela Tribo, porventura seria dada mais atenção ao Passado, que está sempre defronte, cujo estudo seria essencial para perceber o Futuro; enquanto que o Futuro, por ser inteiramente incerto, seria visto com maior precaução, os passos teriam que ser seguros, cautelosos.
Este ano não gostei de grande parte do trabalho dos meus músicos de eleição. Não gosto do novo do Godinho e do Palma, não consigo ouvir o do Jorge Cruz e, embora ainda não tenha ouvido atentamente, parece-me que o último do B. Fachada também não me vai agradar. Mas felizmente houve três cds que me encheram as medidas. São eles:
Fausto - "Em busca das Montanhas Azuis". O fim da trilogia começada com o "Por este rio acima" e seguida do "Crónicas da terra ardente". Cd duplo de grande qualidade, um bom fim.
doismileoito - "Pés frios". Bom pop, bom cd.
B. Fachada - "Deus, Pátria e Família". O bom do Fachada é que se não gosto do trabalho de natal, tenho sempre o trabalho de verão para compensar. "Deus, Pátria e Família" são 20 minutos brilhantes.
Qual o filme da tua vida? Não sei, nem vou saber. Há vários que entram numa lista de melhor de, impossível escolher. Talvez por isso deteste listas. No imdb o filme mais votado é "Os condenados de shawshank". No rotten tomatoes está o "Man on wire" em primeiro lugar. Os críticos normalmente variam entre o "Casablanca" e o "Citizen Kane" como melhores filmes de sempre. E ainda há os que defendem outros clássicos. E depois existo eu que normalmente discordo destas listas.
Como estamos em fim de ano, e vamos ter muito tempo para falar da crise, fica aqui aqueles que foram os melhores filmes deste ano. São poucos, quase não fui ao cinema este ano (cinema é forma de dizer, é mais 'quase que não fui a um centro comercial ver um filme que desse no horário em que lá apareci).
Em primeiro, "Meia-noite em Paris". Sou daqueles que acha que o Woody não consegue fazer um mau filme. E este foi brilhante.

Uma das gaffes mais conhecidas da política portuguesa é a do então candidato Guterres a tentar calcular o PIB, terminando com a famosa frase "é fazer a conta". Se o valor do PIB decorre de simples aritmética, a sua importância e o seu verdadeiro significado não é assim tão linear ou, pelo menos, não o devia ser.
A verdade assente e acrítica de que existe uma correlação entre a subida do PIB e a qualidade de vida de um país - se o PIB sobe é porque o país está a caminhar na direcção certa - não era sequer defendida por Kuznets, prémio Nobel da Economia, que liderava a equipa de economistas que criou o cálculo do PIB, que avisou que “O bem-estar de uma nação não pode, desta forma, ser aferido através do cálculo do seu PIB".
Não se trata de monesprezar o PIB mas retirar a sua excessiva importância. Relativizar o PIB, um indicador entre outros igualmente importantes como a qualidade de vida, a saúde, a igualdade, o bem-estar...
Fontes: The Rise and Fall of the G.D.P.; Redefining the Meaning of no. 1 e Ladrões de Bicicletas
Esta é preeminentemente o momento de falar a verdade, toda a verdade, francamente e corajosamente. Nem precisamos de recuar para honestamente enfrentar as condições do nosso país hoje. Esta grande nação resistirá como resistiu, revive e vai prosperar. Então, em primeiro lugar, deixe-me afirmar a minha firme convicção de que a única coisa que devemos temer é o próprio medo, sem nome, irracional, o terror injustificado que paralisa os esforços necessários para converter a retirada em avanço. (...)
(...) as nossas dificuldades comuns. Dizem respeito, graças a Deus, apenas a coisas materiais. Valores recuaram para níveis assoladores, os impostos subiram, a nossa capacidade de pagar caiu; governo de todos os tipos viu os seus níveis de rendimento reduzidos; as trocas comerciais congelados; a indústria estagnada; agricultores não encontram mercados para seus produtos, as economias de milhares de famílias se evaporaram.
Mais importante, um grande número de cidadãos desempregados enfrentam o problema sombrio da sobrevivência, e um número igualmente elevado trabalha com pouco retorno. Somente um optimista tolo pode negar as realidades complicadas do momento.
(...) Face ao fracasso de crédito a solução que propõem é apenas emprestar ainda mais dinheiro. Despojado da atracção do lucro pelo qual induziram o nosso povo a seguir a sua liderança falsa, eles recorreram às exortações, implorando em lágrimas para que a confiança seja restabelecida. Eles sabem apenas as regras de uma geração de individualistas. Eles não têm visão, e quando não há visão o povo perece.
Os especuladores e gurus do mercado fugiram dos seus tronos elevados no templo da nossa civilização. Podemos agora restaurar esse templo às verdades antigas. A medida da restauração encontra-se na medida em que aplicamos os valores sociais mais nobres do que mero lucro monetário.
A felicidade não se encontra na mera posse de dinheiro, reside na alegria da conquista, na emoção do esforço criativo. A alegria e a estimulação moral do trabalho não devem ser esquecidas na perseguição louca de lucros evanescentes. Estes dias escuros valerão a pena tudo o que nos custou, se eles nos ensinarem que o nosso verdadeiro destino não é para sermos servidos mas para servir a nós mesmos e aos nossos semelhantes.
O reconhecimento da falsidade da riqueza material como o padrão de sucesso anda de mãos dadas com o abandono da falsa crença de que o cargo público e a posição política devem ser avaliados apenas pelos padrões de orgulho do lugar e do lucro pessoal; e tem que chegar ao fim uma conduta no sector bancário e nos negócios que muitas vezes confundiu confiança com a transgressão insensível e egoísta. (...)
A nossa maior tarefa primordial é colocar as pessoas a trabalhar. Este não é um problema insolúvel se for enfrentado com sabedoria e coragem. Pode ser realizado em parte através do recrutamento directo pelo próprio Governo, tratando a tarefa como nós trataríamos a emergência de uma guerra, mas ao mesmo tempo, através deste trabalho, realizando projectos essenciais para estimular e reorganizar o uso do nosso naturais recursos.
Ao mesmo tempo, devemos francamente reconhecer o desequilíbrio da população nos nossos centros industriais e, fazendo uma redistribuição, esforçar-se por proporcionar uma melhor utilização da terra (...). Ele pode ser realizado pelo planeamento nacional e supervisão de todas as formas de transporte e de comunicações e outros serviços que tenham um carácter definitivamente público. Há muitas maneiras em que podem ajudar, mas nunca pode ser efectuado meramente falando sobre isso. Temos que agir e agir rapidamente.
Finalmente, no caminho para a retoma do trabalho, torna-se necessária a existência de duas salvaguardas contra um retorno dos males da velha ordem; deve haver uma estrita supervisão de todos os serviços bancários e de créditos e investimentos, deve haver um fim à especulação com o dinheiro de outras pessoas, e deve haver disposição para uma moeda adequada e credível. (...)
Discurso de posse de Franklin D. Roosevelt (tradução minha)

Quantas vezes os nossos desempregados terão ouvido esta frase? É preciso ir à luta, dizem com paternalismo, como se a culpa fosse deles, dos desempregados, que se portaram mal e agora sofrem o castigo, e, para a sua redenção, precisam de ir à luta.
A ideia de justiça é uma noção reconfortante: se cumprirmos as regras, se trabalharmos bem e esforçadamente, seremos recompensados, não teremos problemas, o nosso mérito será reconhecido.
Surpresa, a vida não é justa, não existe uma relação causal newtoniana mas uma incerteza quântica, que, a qualquer altura, pode atingir qualquer pessoa: a deslocalização ou insolvência de uma empresa, a extinção do seu posto de trabalho... A dependência face a factores externos, incontroláveis; a admissão da nossa própria limitação perante o nosso futuro; a insegurança são pensamentos demasiado aflitivo, torna-se conveniente o refúgio que o sucesso está ao alcance de suor, sangue e lágrimas.
A fria realidade é que 32,2% dos desempregados têm 45 ou mais anos, de acordo com os dados mais recentes do INE, . Assim, antes de exortarem à luta, perguntem quantas empresas encontram-se dispostas a admitir estas pessoas, "velhas" segundo as actuais tendências, para a luta como seus trabalhadores colaboradores.
...ouvi Tony Bennett cantar "Body and Soul" na MTV, é relaxante verificar que às vezes as coisas fazem sentido.
No dia 9 de Novembro de 1989, o Muro de Berlim começou a ser derrubado, marcando o início do fim da Guerra Fria. Um fim surpreendente para um conflito que durara quatro décadas. Ninguém imaginava que um dos blocos implodiria por si, muitos julgavam que iria assistir-se a uma simbiose entre os dois modelos de desenvolvimento, uma síntese hegeliana.
O instinto estava correcto mas não ocorreu com a antí-tese imaginada. Em vez de existir uma sintese com o sistema soviético estamos a assistir uma síntese com o sistema chinês.
A partir do 1980, os governantes chineses foram sucessivamente substituidos por tecnocratas, fieis ao partido único, mas com um saber técnico e profissional que faltava aos "revolucionários originários". Esta alteração trouxe importantes implicações ao sistema político chinês (o original pode ser encontrado aqui):
- Em primeiro lugar, os actuais líderes chineses tendem a pensar que a política é como um projecto de engenharia, cada problema tem uma solução, e quando a solução é encontrada, o caminho para a verdade deve ser claramente seguido, não sendo sujeito a quaisquer vozes dissidentes;
- Em segundo lugar, a política, ao invés de um processo aberto em que as pessoas devem participar, se torna uma questão de engenharia social, com limites claros e soluções certas. Em algum grau, a elite na China têm praticado uma política de anti-política, isto é, tentando acabar com a deliberação, conflito e participação;
- Em terceiro lugar, as elites chinesas sentem-se muito confortaveis na execução da política de projectos: Mega-projectos são o melhor local para demonstrar seus conhecimentos e legitimidade, procurar promoção, mostrando suas realizações, e também para mergulhar os dedos no cofre do Estado de suborno;
- Em quarto, o crescimento económico e prosperidade material são a marca registada de sucesso, os politicos chineses têm extrema dificuldade em compreender que as pessoas têm necessidades espirituais além do ateísmo e do materialismo;
Ora, ao olhar para o que se assiste diariamente na Europa e no mundo ocidental verifica-se que estamos a caminhar neste sentido. Um futuro com menos direitos, mais horas de trabalho e pior remunerado, o esvaziamento do discurso político e da legitimação pelo voto, por um poder tecnocrata alheado das aspirações dos eleitores.

Da leitura dos jornais ou noticiários televisivos não parece, mas Portugal também participou na 1ª Guerra Mundial, tendo sido mobilizados mais de 200 mil homens, dos quais cerca de 10 mil morreram e muitos milhares ficaram feridos.
Hoje, 11 de Novembro de 2011, é o aniversário do fim simbólico deste conflito. Infelizmente, parece que todos os impulsos patrióticos de hoje foram sugados por causa de um jogo de futebol, é pena.
I will come to a time in my backwards trip when November eleventh, accidentally my birthday, was a sacred day called Armistice Day. When I was a boy, and when Dwayne Hoover was a boy, all the people of all the nations which had fought in the First World War were silent during the eleventh minute of the eleventh hour of Armistice Day, which was the eleventh day of the eleventh month.
It was during that minute in nineteen hundred and eighteen, that millions upon millions of human beings stopped butchering one another. I have talked to old men who were on battlefields during that minute. They have told me in one way or another that the sudden silence was the Voice of God. So we still have among us some men who can remember when God spoke clearly to mankind.
Armistice Day has become Veterans' Day. Armistice Day was sacred. Veterans' Day is not.
So I will throw Veterans' Day over my shoulder. Armistice Day I will keep. I don't want to throw away any sacred things.
What else is sacred? Oh, Romeo and Juliet, for instance.
And all music is.
Breakfast of Champions, Kurt Vonnegut

No fim da adolescência há uma pressa de sair, uma vontade de partir, seja por onde for, largar por aí fora, pelas ondas, pelo perigo, pelo mar, pelas noites misteriosas e fundas. Ir, ir, ir, ir de vez! Uma vida cheia de ânsias que a realidade ainda não estreitou.
Mas a realidade chega e envolve as ânsias num suave torpor; afunila o horizonte; ancora os desejos. Nascem raízes - boas raízes. Estas crescem, tornam-se cada vez mais profundas, agarram e embalam-nos. O desejo de partir não desaparece, modifica-se: a viagem é sempre de ida e volta.
E se essa realidade não chegar? Se o solo pátrio não permitir que as raízes penetrem no seu ventre, agora, árido e infértil? Centenas, milhares de jovens obrigados a emigrar. Um êxodo. Um desperdício dos melhores e mais capazes. Uma geração perdida.
Neste fim-de-semana senti orgulho em ser portista. O quê?! Sentir orgulho após dois resultados deploráveis: uma derrota contra uma equipa da quarta divisão europeia; e um empate e exibição paupéria, sem imaginação e estofo de campeão.
Costuma-se dizer que a verdadeira personalidade revela-se, não em alturas de sucesso, mas em tempos de dificuldade e infortunío, quando as marés de azar batem à nossa porta.
Ora, o Porto, no jogo contra o Olhanense, teve, segundo os entendidos, duas grandes penalidades a seu favor que não foram assinaladas: uma discutível mão na bola de Mexer (infelizmente parece que actualmente tudo que toca na mão é falta) e uma falta do mesmo Mexer sobre o Hulk.
Pese embora estes incidentes, não ouvi, quer de parte da estrutura quer de quase a totalidade dos adeptos, qualquer referência a estas duas penalidades (e ainda bem que assim não o foi) cinjindo-se as críticas ao funcionamento da equipa, à falta de garra e confiança, à inoperância do treinador.
Outros clubes menores teriam-se agarrado, com unhas e dentes, a estas duas penalidades para branquear o desaire. Os treinadores e dirigentes teriam levantando suspeitas e cabalas, sombras do sistema ou outras histórias de embalar a fim de ludibriar os seus adeptos, assinalando causas exógenas como origem dos maus resultados.
Essa atitude de desresponsabilização faria apenas eternizar a crise, os jogadores não sentiriam a necessidade de correr mais, jogar melhor porque no fundo a culpa era dos arbítros. Mas o verdadeiro campeão não é assim. O verdadeiro campeão vai buscar a cada dificuldade força para lutar mais e melhor, a cada injustiça mais vontade de se superar.
Isto é ser Porto! E foi por isto que senti orgulho.